Renato Saboya
Desde os tempos da faculdade, e principalmente depois de formado, lecionando no curso de Arquitetura e Urbanismo e participando de bancas de graduação, eu tenho um interesse especial pelos meios de intervenção no espaço urbano, especificamente pela diferença entre plano e projeto.
É muito comum trabalhos de graduação que “misturam” esses dois conceitos de uma forma não muito consciente e, por isso mesmo, não muito amadurecida, apresentando sérios problemas conceituais. Plano e projeto devem ser misturados, devem trabalhar em conjunto, mas é necessário um bom entendimento das suas diferenças e peculiaridades para que o trabalho final faça sentido.
Um projeto, no estrito sentido de um projeto urbano, é um esquema organizativo que oferece orientações àqueles responsáveis por executá-los. No caso de uma praça, por exemplo, um projeto deve definir as áreas calçadas e as áreas verdes, a localização dos bancos e demais mobiliários, as dimensões de todos os elementos, os materiais utilizados na pavimentação, e por aí afora.
Um plano urbano também oferece orientações, mas não aos executores da obra, e sim aos profissionais responsáveis pela elaboração dos projetos. O objetivo do plano, portanto, é garantir que os projetos isolados tenham uma noção de conjunto, ou seja, que o resultado de uma série de projetos individuais contribua para atingir objetivos coletivos. Devem constar dos planos elementos de orientação aos projetos, tais como diretrizes de localização (e não a localização propriamente dita) de usos e atividades, limit es à ocupação, intenções de traçado viário e de conexões urbanas (e não a definição precisa da via, que deve ser objeto de um projeto posterior), e assim por diante. E claro que diante da diversidade de situações encontradas pelos urbanistas, igualmente diversos são os elementos que podem constar de um plano.
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Um plano gera cenários e oferece orientações para projetos.
Nos trabalhos dos cursos de arquitetura, é muito comum ver confusão quanto a esses aspectos. Assim, são frequentes os trabalhos que se propõem a fazer uma reestruturação de um setor da cidade (como uma área central, por exemplo), e o estudante propõe, além de novas ruas e usos a serem incentivados, edificações com o projeto completo detalhando inclusive que tipo de atividades comerciais se desenvolverão nos espaços propostos (“- Aqui haverá uma floricultura, ali vai ser um restaurante…”).
Ora, salvo raríssimas exceções, não é assim que funciona na “vida real”. Um projeto de reestruturação urbana é, na verdade, um plano, que deve fornecer orientações, diretrizes, incentivos e limitações a toda uma série de intervenções autônomas que, no final das contas, devem obedecer aos objetivos traçados. Um projeto de edificação é uma dessas intervenções, e não pode (ou pelo menos não deve) ser tratado juntamente com o plano como uma coisa só.
Excepcionalmente, por se tratar de um trabalho acadêmico, isso poderia ser permitido (e até mesmo incentivado) caso o aluno mantivesse a perspectiva e soubesse diferenciar até onde seu trabalho está propondo um plano, e a partir de que ponto ele propõe um projeto para exercitar a aplicação do plano. No caso da reestruturação urbana citado acima, o aluno poderia, depois de exposto e definido o plano, propor um projeto que se encaixasse nas suas diretrizes, com um discurso do tipo “- Aqui, como um exemplo da aplicação do plano aos projetos subsequentes, apresento uma possibilidade de projeto para o museu / praça / centro comercial”.
Um plano gera cenários, que são representações das possibilidades de desdobramentos a partir da interpretação das suas diretrizes. Assim, um zoneamento tradicional, por exemplo, pode gerar cenários do tipo de ocupação que tende a resultar de suas diretrizes. É possível saber se serão prédios ou casinhas isoladas, mas não é possível saber se o edifício comercial terá ou não uma floricultura, ou se as janelas serão arredondadas ou em fita.
3 Comentários
Ola, Renato
Sou estudante de Arquitetura, estou desenvolvendo meu trabalho de Graduação sobre uma reestruturação urbana de um centro secundário na cidade do Recife e não consigo encontrar estudo de casos sobre esse tema.
Gostaria de uma ajuda de sua parte pois só encontro trabalhos academicos sobre o tema e na verdade eu preciso de algo que foi executado realmente.
Obrigado pela sua atenção
Espero anciosa por alguma ajuda
Rafaela Nemesio
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