Tipos arquitetônicos e vitalidade urbana

Este texto foi redigido pelo Prof. Vinicius de Moraes Netto (UFF-RJ), e diz respeito ao artigo “The convergence of patterns in the city: (Isolating) the effects of architectural morphology on movement and activity“, tratado em um post anterior. Nele, alguns resultados preliminares obtidos pelo estudo até o momento são apresentados.

 

Gostaríamos de chamar a atenção para o que pode ser um problema grave de nossas cidades – aparente em um estudo que conduzimos recentemente no Rio de Janeiro, aplicando uma metodologia desenvolvida por um grupo de pesquisadores de quatro universidades (Renato Saboya – UFSC; Julio Vargas – UFRGS; Lucas Figueiredo – UFPA; Vinicius M Netto – UFF e colaboradores).

Estamos pesquisando sinais de associação entre a presença de certos tipos arquitetônicos e itens das dinâmicas sociais e econômicas de caráter local (uso pedestre do espaço para circulação e interação; presença de atividades comerciais e de serviços – aspectos da vida social e microeconomia que reunimos sob o bem-conhecido termo “vitalidade urbana”).

Nossas hipóteses acompanham observações e intuições de muitos: a diluição do tecido urbano na forma de tipos arquitetônicos caracterizados por recuos entre si e em relação a rua teriam influência negativas sobre a vitalidade urbana. Desenvolvemos uma metodologia para permitir o controle dos níveis de acessibilidade e densidade em áreas urbanas sob estudo, de forma a examinarmos com mais precisão as variações na morfologia arquitetônica, e relacionar a distribuição de tipos e características na geometria das implantações e fachadas à distribuição das variáveis sociais e microeconômicas mencionadas.

 Analisamos 24 áreas na cidade do Rio de Janeiro, selecionadas aleatoriamente, e levantamos 249 trechos de quarteirão e cerca de 3800 edifícios, dispostos em 3 conjuntos de amostra, cada um com um nível distinto de acessibilidade (entenda-se como acessibilidade permitida pela rede de ruas e suas hierarquias mensuradas via medidas topológicas) – baixa, média e alta. Controlamos ainda as densidades nessas áreas.

Nossos achados são preocupantes: ainda que nossa análise estatística seja preliminar nesse momento, encontramos correlações que mostram que certos tipos tendem ou a coincidir com maior ou menor presença de pedestres, comércios e serviços.

Correlações em áreas de uma das faixas de acessibilidade analisadas:

Lembrando que correlações baseadas no coeficiente de Pearson variam entre zero (nenhuma correlação) e +1 ou -1 (correlação perfeita positiva ou negativa), a correlação encontrada entre edifícios-tipo divisa (com fachadas contínuas) e movimento de pedestres  foi de 0.321. Entre este tipo e a presença de térreos com comércios ou serviços, fundamentais para a vitalidade de nossas ruas, 0.414. Ou seja, a presença dessas fatores coincide em torno desses coeficientes.

Os resultados preliminares confirmam haver influência da tipologia sobre a vitalidade urbana

Já a correlação entre o edifício-tipo torre (fachadas descontínuas) e movimento de pedestres é de -0.336; entre torres e atividades de comércios ou serviços em térreos, -0.414. Notem que o sinal passa a ser negativo; isso quer dizes que a presença de edifícios do tipo torre tendem a variar de forma inversa ao movimento de pedestres: quanto mais edifícios desse tipo, menos movimento de pedestres.

Investigamos ainda os tipos em relação a uma medida de diversidade de atividades em térreos e pavimentos superiores, encontrando correlações positivas de 0.419 entre tipos-divisa e diversidade no térreo, e -0.449 para tipos-torre.

Analisamos as correlações entre outras variáveis, entre elas pedestres e densidade de portas (0.680), pedestres e densidade de janelas (0.723), pedestres e extensão de recuos frontais (-0.418), e presença de muros (-0.472) ou lotes abertos (0.680).

Essas e outras características foram em seguidas confrontadas com os tipos, apontando geralmente correlações significativas positivas entre densidade de portas e janelas e lotes abertos e o tipo divisa, e positivas entre recuos e muros e o tipo torre, hoje o preferido pelo mercado imobiliário e – assim nos dizem – consumidores. De modo muito interessante, esses dois tipos parecem ter efeitos inversos e significativos sobre variáveis sociais e econômicas locais.

Outras faixas de acessibilidade têm resultados com variações eventualmente intrigantes, seguindo contudo a tendência dos sinais positivos e negativos encontrada acima, ainda que geralmente com menor intensidade. Os resultados mais detalhados (investigamos cerca de 30 variáveis arquitetônicas e urbanas e 10 variáveis socioeconômicas) acabam de ser publicados e apresentados em evento (8th International Symposium of Space Syntax), e já foi objeto de um post aqui no Urbanidades. O artigo está disponível no Urbanismo.arq.br e na página do Grupo InfoArq, vinculado à UFSC.Para os interessados, podemoa ainda disponibilizar nossa apresentação no evento.

O artigo é divido em duas partes: a primeira parte, teórica, discute o problema da relação entre padrões urbanos. O problema de que tratamos acima é o segundo tema do artigo: a relação entre um padrão urbano específico (a morfologia arquitetônica) e os padrões de distribuição de atividades económicas e de uso pedestre do espaço urbano . É essa parte que traz o que chamamos “os efeitos da morfologia arquitetônica”.

Estamos agora preparando o estudo de mais duas capitais brasileiras, Porto Alegre, conduzido por Julio Vargas, e Florianópolis, por Renato Saboya.

Reforçamos a urgência do problema e do seu debate.

 

Vinicius M Netto – UFF

Renato Saboya – UFSC

Julio Vargas – UFRGS

Lucas Figueiredo – UFPB

3 thoughts on “Tipos arquitetônicos e vitalidade urbana”

  1. Muito interessante mesmo.
    Pode servir de alerta para novas construções…

  2. Gostaria de ter acesso a apresentação!

    Estudo esse tipo de interação na faculdade esse semestre e gostaria de me aprofundar melhor no assunto, achei fantástico a ideia de “medir” graus de interação do pedestre de acordo com a tipologia. Até então não conhecia dados mais concretos, eram empíricos, podendo-se utilizar tais estudos como base para parâmetros projetuais os uso do espaço se torna mais qualificado.

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