Redes sociais, segregação e pobreza em São Paulo – Eduardo Marques

Este post é baseado num artigo muito interessante de Eduardo Marques, professor da USP e vice-diretor do Centro de Estudos da Metrópole, intitulado “Redes sociais, segregação e pobreza em São Paulo” (no original, Social Networks, Segregation and Poverty in São Paulo). Nele, Marques analisa a rede social de indivíduos pobres para entender suas características, quando comparadas às de indivíduos de classe média.

Metodologia

A pesquisa envolveu a análise das redes sociais de 209 indivíduos pobres e de 30 indivíduos de classe média, para estabelecer uma comparação. As entrevistas foram feitas em sete áreas segregadas em São Paulo, e a cada entrevistado foi pedido que listasse pessoas nas seguintes áreas de sociabilidade: família, vizinhos, amigos, trabalho, religião, associações, lazer e outros. Isso permitiu investigar a composição dessas redes em termos dos tipos de contato e de onde eles são originados e/ou costumam acontecer. As áreas selecionadas em São Paulo estão mostradas na figura abaixo.

Fonte: Marques, 2012.

Os resultados

Os resultados obtidos mostraram vários aspectos interessantes das redes sociais de indivíduos pobres, começando pela ausência quase total de indivíduos não pobres nessas redes. Marques chama esse fenômeno de “homofilia social”, ou seja,  redes sociais nas quais as relações são majoritariamente entre pessoas com características similares. O autor considera a homofilia social como um dos principais problemas para a perpetuação da pobreza e da desigualdade social, conforme será tratado mais adiante.

Outra característica importante dessas redes é que elas tendem a ser menores e menos variadas do que as redes de indivídios da classe média. Isso quer dizer que indivíduos pobres, de acordo com a pesquisa, possuem redes sociais compostas por um menor número de pessoas, e que essas pessoas tendem a pertencer a um menor número de esferas de sociabilidade, ficando concentrada em poucos âmbitos de convivência (por exemplo, família e vizinhos, ou vizinhos e religião). Para efeitos de comparação, veja as imagens abaixo: a primeira ilustra a rede média de um indivíduo pobre do sexo feminino, enquanto a segunda ilustra a rede média de uma indivíduo de classe média, também do sexo feminino.


Fonte: Marques, 2012.

Dentro do grupo de indivíduos pobres, aqueles mais pobres possuem redes ainda menos diversas do ponto de vista da sociabilidade, bem como mais apoiadas na vizinhança. Por isso, essas pessoas acabam desenvolvendo poucos laços fora de suas comunidades ou bairros, o que é um sinal da dificuldade que enfrentam em criar e manter esses laços ao longo do tempo. Esse fenômeno é suavizado pelos anos de educação, sendo que indivíduos com mais anos tendem a possuir redes mais diversas (mesmo entre os mais pobres).

O gênero masculino ou feminino não mostrou variações significativas em relação ao tamanho e variabilidade das redes, mas pessoas que frequentam cultos religiosos mostraram redes mais variadas, mesmo quando comparadas com outras pessoas com o mesmo nível de renda.

Redes sociais de indivíduos pobres são menores, mais localizadas e menos diversificadas do que as de indivíduos da classe média.De forma geral, Marques ressalta o localismo das redes de indivíduos pobres quando comparadas aos de indivíduos de classe média. Estes últimos possuem redes que abangem áreas geográficas muito maiores que as de pessoas pobres e, apesar de o autor não se aprofundar nas explicações para isso, podemos imaginar que tenha a ver com as condições materiais de exisstência associadas a diferentes classes sociais: pessoas da classe média normalmente possuem condições de adquirir e manter um automóvel privado e de se deslocar mais livremente pela cidade, levando os filhos na escola, indo à academia, ao trabalho, etc. A localização da escola e de outros pontos importantes da rotina são menos constrangidos pelas possibilidades oferecidas pela rede de transporte público, o que permite escolhas baseadas em outros critérios além das distâncias a serem percorridas. Vasconcellos (2000) argumenta que as viagens realizadas pela população de mais alta renda é duas vezes maior que às da população de baixa renda, e mais diversificada:

Agora, as crianças de classe média frequentam escolas privadas, muitas vezes localizadas longe de suas casas […]. Os serviços médicos privados também se espalham no espaço, o abastecimento de casa requer a viagem aos supermercados, os locais de compra estão crescentemente localizados em shopping centers regionais […]  (Vasconcellos, 2000, p. 113)

Enquanto isso, por outro lado:

[…] as crianças das classes trabalhadoras continuam a caminhar até as escolas públicas e os centros de saúde do bairro e têm seu lazer brincando nas ruas ou em lotes vazios das proximidades. (Vasconcellos, 2000, p. 113)

Esse ponto também foi tratado por Netto (2014), já contemplado em outro post aqui no Urbanidades.

Quando vistas no seu conjunto, essas condições se reforçam mutuamente e atuam no sentido de perpetuar o quadro de exclusão e precariedade pelo qual passam pessoas pobres que moram em áreas segregadas. Suas redes extremamente locais, homofílicas e baseadas em poucos esferas de sociabilidade dificultam, por exemplo, o conhecimento sobre oportunidades de empregos e/ou outras oportunidades de melhorar sua vida (notícias sobre vagas em escolas, cursos gratuitos, atividades culturais, etc.).

Um aspecto não explorado, mas que também poderia ser bastante interessante, seria comparar as redes de indivíduos pobres morando em áreas segregadas com aquelas de indivíduos pobres morando em áreas não segregadas. Isso permitiria uma investigação mais específica sobre o papel do espaço e da segregação sobre essas redes.

Referências

MARQUES, E. Social Networks, Segregation and Poverty in São Paulo. International Journal of Urban and Regional Research, v. 36, n. 5, p. 958–979, 2012.
NETTO, V. DE M. Espaço & Sociedade: as tramas da prática e seus espaços. Porto Alegre: Sulina, 2014.
VASCONCELOS, E. Transporte urbano nos países em desenvolvimento: reflexões e propostas. São Paulo : Annablume, 2000.

1 thought on “Redes sociais, segregação e pobreza em São Paulo – Eduardo Marques”

  1. La segregación es sin duda una enfermedad urbana. Me parece sumamente interesante la idea de comprender las redes a partir de este enfoque, redes diferenciadas por dos clases sociales; esto muestra nuevos enfoques acerca del desarrollo de las ciudades.

    Creo muy válido la idea de plantear una comparativa de redes entre clases sociales, pero en espacios donde no hay segregación, esto podría dar más luces sobre la convivencia social y la recuperación del espacio público.

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