O surgimento do planejamento urbano

Londres - Revolucao Industrial

O planejamento surgiu como uma resposta aos problemas enfrentados pelas cidades, tanto aqueles não resolvidos pelo urbanismo moderno quanto aqueles causados por ele. A expressão “planejamento urbano” vem da Inglaterra e dos Estados Unidos, e marca uma mudança na forma de encarar a cidade e seus problemas.

Uma modificação importante refere-se ao reconhecimento do fenômeno urbano como algo dinâmico, o que leva a encarar a cidade como resultado de sua própria história e como algo que está, de alguma maneira, evoluindo no tempo. Portanto, a cidade passa a ser vista como o produto de um determinado contexto histórico, e não mais como um modelo ideal a ser concebido pelos urbanistas (KOHLSDORF, 1985).

Isso leva à segunda mudança introduzida pelo planejamento: a ênfase passa da busca pelo modelo de cidade ideal e universal para a solução de problemas práticos, concretos, buscando estabelecer mecanismos de controle dos processos urbanos ao longo do tempo. A cidade real passa a ser o foco, ao invés da cidade ideal.

Outra mudança importante é a entrada em cena de profissionais de diversas áreas do conhecimento, cada um com a sua visão sobre os problemas da cidade. Dessa forma, houve uma redução no papel do arquiteto no desenvolvimento das cidades. A partir daí esse papel, que até então era preponderante, foi reduzido a apenas uma parte do processo como um todo. Kohlsdorf (1985, p. 35) argumenta que

ao receber a colaboração de sociólogos, historiadores, economistas, juristas, geógrafos, psicólogos etc., a definição de cidade realizada pela arquitetura entrou, talvez, na maior crise de toda a história desta última.

cidade - visao geral - 01
Foto: Stuck in Customs.

Dentro dessa nova concepção, o planejamento pode ser definido como o processo de escolher um conjunto de ações consideradas as mais adequadas para conduzir a situação atual na direção dos objetivos desejados.

Essa visão contrasta com a con cepção mais tradicional, segundo a qual o urbanista deveria “projetar” a cidade. Mas essa mudança somente se consolidou com o advento do planejamento sistêmico, que representou

[…] uma mudança da velha idéia de planejamento como a produção de projetos para cidade desejada do futuro para uma nova idéia de planejamento como uma série contínua de controles sobre o desenvolvimento de uma área, auxiliados por mecanismos que buscam simular o processo de desenvolvimento de forma que esse controle possa ser aplicado. (HALL, 2002, p. 6)

Brian McLoughlin, em seu clássico livro “Urban & regional planning: a systems approach” (MCLOUGHLIN, 1969), lança as bases do planejamento sistêmico. Segundo ele, a cidade é um sistema composto por partes (atividades humanas e os espaços que as suportam) intimamente conectadas (fluxos e canais de circulação). Por isso, para intervir nesse sistema não é mais suficiente o enfoque espacial dos arquitetos, dominante até então. Ao contrário, é necessário reconhecer o caráter dinâmico e sistêmico das cidades.

Partindo desse argumento, McLoughlin propõe uma seqüência de etapas que devem ser seguidas durante o processo de planejamento e que, ao contrário da tradição arquitetônica, não acaba com a seleção das ações a serem implementadas (ou, no caso dos arquitetos, com o projeto físico da área). O processo de planejamento, portanto, passa a ser visto como um processo cíclico, no qual os resultados alcançados pelas ações passam a servir de objeto de análise que gera retroalimentações para as outras fases do processo.

As etapas prescritas por McLoughlin são:

  1. Avaliação preliminar
  2. Formulação dos objetivos
  3. Descrição e simulação do sistema
  4. Definição de alternativas (cursos de ação)
  5. Avaliação das alternativas
  6. Seleção das alternativas
  7. Implementação

Referências

Benevolo, L., & Mazza, S. (2003). História da cidade. São Paulo: Perspectiva.
Hall, P. (2002). Urban and regional planning (Vol. 4th ed ). New York: Routledge.
Kohlsdorf, M. E. (1985). Breve histórico do espaço urbano como campo disciplinar. In O espaço da cidade – contribuição à análise urbana (pp. 15 –72). São Paulo: Projeto.
Mc Loughlin, J. B. (1969). Urban & regional planning: a systems approach. London: Faber and Faber.

29 comentários sobre “O surgimento do planejamento urbano

  1. tenho muito interesse pelos assuntos de planejamento, o artigo é muito interessante e é importante disseminar essas imformações, pois assim sucita debate na sociedade.

  2. Olá!
    No caso específico deste post, o termo “tradicional” refere-se ao urbanismo tal como era pensado no início do séc. XX: os arquitetos tentavam identificar um modelo ideal de cidade, e desenhavam-na como uma prescrição para todas as cidades.

    Você pode ler um pouco mais sobre isso no post “O Urbanismo“.

    Obrigado a todos pelos comentários!

    1. De acordo com renato, os arquitetos em conjunto com suas funçoes de construir e isso é tudo o que envolve a palavra, pensavam sempre na melhor maneira de modelar uma cidade, era parte de sua funçao; a questao do modelo “ideal”, porque para todo o arquiteto, o melhor de tudo ainda nao esta bom. Pensa sempre na perfeiçao, na qualidade e sua funçao.

  3. Gostaria de saber como o planejamento urbano foi aplicado no Rio de Janeiro. As obras empreendidas por Pereira Passos, no início do século, e a comissão de melhoramentos da cidade que as precedeu, o plano Agache, o da Cidade e o Doxiadis podem ser classificados como modelos de planejamento urbano? O termo “plano diretor” surge apenas com a Constituição de 1988? Que relação existe entre planejamento urbano e plano diretor?

    1. Veja meu texto “UMA CONTRIBUIÇÃO PARA A HISTÓRIA DO PLANEJAMENTO URBANO NO BRASIL”, no livro O PROCESSO DE URBANIZAÇÃO NO BRASIL, organizado por Csaba Deák e Sueli Ramos Schiffer, São Paulo, Fupam/Edusp 1999.
      Lá está o Rio de antes e durante Agache, Doxiadis etc. e o nascimento da expressão Plano Diretor

    2. olá Silvio, viva. Amtes de mais, parabens pelo lançamento do livro.

      Olá Monica Gugliano,
      como vai? Viva!

      Sou Nuno Amaral, jornalista da rádio portuguesa TSF (www.tsf.pt). Durante três anos fui correspondente no Brasil da rádio e do jornal PÚBLICO (www.publico.pt).
      De 19 de Julho a 15 de Agosto estarei no Brasil a fazer uma série de reportagens(radiografias, enfim, tanto como será possível radiografar essse país), um conunto de trabalho pré-eleições. durante o período eleitoral “duro” teremos uma pessoa a fazer campanha.

      Vou com uma companheira da agência estatal de notícias Lusa (www.lusa.pt). Além das reportagens a publicar nas duas semanas anteriores a 3 de Outubro, pensamos depois fazer um documentário com o material recolhido,

      gostavamos de entrevistá-lo. POde contactar me?

      namaralpublico@gmail.com
      00351 96 478 62 47

  4. Olá Sílvio:
    Acho que não, se entendermos “modelos” no sentido de prescrições sobre como o planejamento urbano deve ser. Flávio Villaça chama esse tipo de planejamento de “planos de melhoramento e embelezamento”. Vale a pena ler o artigo dele:

    VILLAÇA, Flávio. Uma contribuição para a história do planejamento urbano no Brasil. In: DEÁK, Csaba; SCHIFFER, Sueli Ramos (org.) O processo de urbanização no Brasil. São Paulo: Editora da USP, 1999. p. 169 – 243.

    Quanto às outras questões, o termo “plano diretor” é mais antigo que a Constituição, mas não saberia precisar quando ele surgiu. Sei, entretanto, que já na década de 70 era usado o termo “Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado”, que eram aqueles planos enormes que acabavam sendo engavetados.

    Por fim, a relação entre plano diretor e planejamento é simples. Este tem como resultado aquele. O processo de planejamento deve gerar um plano, que então será usado como referência para as ações de intervenção no território ao longo do tempo. Você pode ler mais sobre isso em:

    http://urbanidades.arq.br/2008/06/o-que-e-plano-diretor/

    http://urbanidades.arq.br/2007/06/plano-diretor-como-orientador-das-aes-urbanas/

  5. Olá Renato,
    descobri o “Urbanidades” por acaso e estou encantada com tantas informações maravilhosas!!! Estou numa fase de “lapidando”, meu tema para o mestrado e descobri aqui, muita legal, autores que eu não conhecia…

  6. Renato, tenho este site como favorito e sempre q posso busco informações nele, acredito que seria interessante (meu interesse) ter algo sobre a influência das diversas escolas de pensamento (christaller, chicago e etc) relacionadas a construção de um pensamento de planejamento urbano, se tiver algo neste sentido favor me informar. Obrigado e parabéns.

  7. Parabéns pelo conteudo do site. Claro, didático, acessível, tem sido muito útil nos meus estudos. Quando vier a Joinville, venha fazer uma visita ao IPPUJ, ficaríamos muito agradecidos.

  8. Por muito tempo procurei definições ou explicações como essa sobre o Planejamento urbano. Texto muito bom e com informações válidas!

    Parabéns!

  9. Extremamente interessante, entretanto, para fins de estudo seria mais confiável sua fonte de informações se pudesse disponibilizar as referências ao final do texto.
    😉

  10. Bom dia!

    Sou um iniciante na pesquisa acerca do planejamento urbano e gostaria de saber qual foi o primeiro trabalho sobre o tema, no âmbito nacional e internacional, e também quais são os trabalhos seminais

  11. Desculpa mas sou estudante de arquitetura e na verdade não foi a Inglaterra e EUA que iniciaram o planejamento urbano, mas a Alemanha… está qui algumas fontes pra pesquisar melhor:

    http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/09.097/134
    GURLITT, Cornelius. Handbuch des Städtebaues. Berlin, Der Zirkel, Architekturverlag, 1920.

    QUINTO JR, Luis do Piñedo. Revisão das origens do urbanismo moderno. Dissertação de mestrado. Brasília, UNB, 1988.

    isso era uma hipótese antiga onde achava-se que foi a Inglaterra, pois a Inglaterra era a potencia da época e se apossava das ideias da Alemanha. dá uma lida nesse artigo do site vitruvius, explica bem isso…
    essa dissertação de mestrado tbm é muito boa pra inteder melhor

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