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	<title>Urbanidades | Posts marcados como teoria do planejamento - Urbanismo, Planejamento Urbano e Planos Diretores</title>
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	<description>Urbanismo, Planejamento Urbano e Planos Diretores</description>
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	<title>Urbanidades | Posts marcados como teoria do planejamento - Urbanismo, Planejamento Urbano e Planos Diretores</title>
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		<title>Planejamento urbano como tomada de decisões coletivas, progressivas, interrelacionadas e dependentes do  caminho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Renato Saboya]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Feb 2020 19:13:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[decisão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este post faz um resumo em português de artigo que tenta organizar e explorar algumas conclusões às quais cheguei depois de confrontar e tentar fazer dialogar estudos e reflexões teóricas provenientes da literatura com minhas participações em situações práticas de planejamento urbano. &#8230; <a href="https://urbanidades.arq.br/2020/02/06/planejamento-urbano-como-tomada-de-decisoes-coletivas-progressivas-interrelacionadas-e-dependentes-do-caminho/" class="more-link"><span class="readmore">Leia mais...<span class="screen-reader-text">Planejamento urbano como tomada de decisões coletivas, progressivas, interrelacionadas e dependentes do  caminho</span></span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>No finalzinho de 2019 publiquei o artigo que dá o título a este post na <a href="https://rppc.emnuvens.com.br/index">Revista Políticas Públicas &amp; Cidades</a>. Ele tenta organizar e explorar algumas conclusões às quais cheguei depois de confrontar e tentar fazer dialogar estudos e reflexões teóricas provenientes da literatura com minhas participações em situações práticas de planejamento urbano. Ele foi elaborado, desenvolvido, revisado e ajustado durante muitos anos; o fato de ter sido escrito em inglês contribuiu para essa demora, mas a principal razão foi a necessidade de costurar diversos aspectos teóricos e práticos em  uma estrutura teórica que fizesse sentido e que pudesse efetivamente auxiliar e avançar na compreensão de processos de planejamento.</p>



<span id="more-2112"></span>



<p>Essa amarração foi feita pelo conceito de decisão. Não é o primeiro artigo em que uso esse conceito para entender o planejamento: em 2013, publiquei o &#8220;<a href="http://dx.doi.org/10.7213/urbe.05.002.AC01">Fundamentos conceituais para uma teoria do planejamento urbano baseada em decisões</a>&#8221; na <a href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_serial&amp;pid=2175-3369&amp;lng=en&amp;nrm=iso">Revista Urbe</a>, que estabeleceu as bases conceituais para que este artigo de 2019 pudesse ser escrito e fosse capaz de avançar na compreensão sobre o tema.</p>



<p>Ao contrário de uma grande parte de outros trabalhos sobre o processo de planejamento, eu parto de uma abordagem descritiva e explicativa para caracterizá-lo e entendê-lo, em oposição a um viés propositivo ou prescritivo que tentasse dizer como ele deveria ser. Construo, então, um modelo teórico sobre como o planejamento funciona enquanto um sistema de decisões interrelacionadas, destacando e discutindo os seguintes aspectos:</p>



<ul class="wp-block-list"><li>A necessidade de convicção como requisito para a tomada de decisões, brevemente abordada aqui porque já havia sido discutida no artigo de 2013.</li><li>O caráter progressivo da construção de conhecimento sobre o problema, incluindo até mesmo saber qual ou quais são os problemas a serem enfrentados, uma vez que eles não estão claros no começo. Assim, o conhecimento sobre o sistema sendo planejado (isto é, a cidade ou parte dela) vai aumentando à medida que o processo avança, mas não apenas ele: também o conhecimento sobre as preferências, objetivos, desejos, boa vontade em participar, e mais uma série de aspectos sobre os participantes, precisa evoluir com o tempo.</li><li>Apesar disso, ou seja, mesmo com informações incompletas, desde o começo são necessárias decisões preliminares que orientem os esforços dos participantes, porque do contrário as possibilidades a serem examinadas seriam tão numerosas que se tornariam impossíveis de serem consideradas. Decisões preliminares &#8220;fecham&#8221; algumas possibilidades de modo a tornar viável a discussão e consideração sobre as alternativas que continuam disponíveis.</li><li>Para fazer isso, é preciso que as alternativas para essas decisões iniciais sejam avaliadas e escolhidas com base no que se imagina que elas permitirão, nas fases posteriores, em termos de alternativas. Ou seja: elas permitem manter abertas possibilidade interessantes? Ou estão excluindo possibilidades que seria melhor manter abertas?</li><li>Como essas decisões afetam todo o processo, elas são importantíssimas. No entanto, são feitas no começo, quando as incertezas ainda são grandes. Como essas incertezas abrangem também os critérios a serem usados para tomar as decisões, emerge o que chamo de &#8220;paradoxo dos critérios de avaliação&#8221;: nas fases iniciais, quando eles são mais importantes &#8211; porque mais determinantes e capazes de orientar aspectos estruturais da solução final -, temos menor convicção sobre quais e como eles devem ser. Ao final do processo, sabemos com muito mais detalhes quais devem ser os critérios, mas nesse ponto as decisões iniciais já restringiram muito o leque de opções disponíveis e, portanto, eles podem mudar relativamente pouca coisa.</li><li>Por fim, apesar de muito se falar no caráter iterativo do planejamento, segundo o qual ele vai e volta nas discussões e decisões, argumento que isso é bastante limitado pelo custo envolvido em tomar decisões preliminares, especialmente quando essas decisões são tomadas coletivamente. Voltar atrás em uma decisão acordada entre muitos participantes não é algo fácil, e implica no &#8220;desperdício&#8221; de investimento de tempo, energia e outros tipos de recursos já feitos pelos participantes. Portanto, o processo depende do caminho: decisões iniciais, por não poderem ser revertidas facilmente, podem moldar significativamente o restante do processo, mesmo que, posteriormente, o grupo considere que elas não tenham sido ideais.</li></ul>



<p>Essas questões são bem mais aprofundadas no artigo que, infelizmente, possui versão apenas em inglês. Ele pode ser encontrado aqui:</p>



<p><a href="https://doi.org/10.23900/2359-1552v8n3_4">Urban planning as collective, progressive, interrelated and path-dependent decision making</a></p>The post <a href="https://urbanidades.arq.br/2020/02/06/planejamento-urbano-como-tomada-de-decisoes-coletivas-progressivas-interrelacionadas-e-dependentes-do-caminho/">Planejamento urbano como tomada de decisões coletivas, progressivas, interrelacionadas e dependentes do  caminho</a> first appeared on <a href="https://urbanidades.arq.br">Urbanidades</a>.]]></content:encoded>
					
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		<title>Definição de Planejamento Urbano por Yehezkel Dror</title>
		<link>https://urbanidades.arq.br/2011/02/13/definicao-de-planejamento-urbano-por-yehezkel-dror/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Renato Saboya]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 13 Feb 2011 20:28:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[decisão]]></category>
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		<category><![CDATA[objetivos]]></category>
		<category><![CDATA[previsão]]></category>
		<category><![CDATA[prognóstico]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Apesar de não ser um autor muito conhecido no que diz respeito à teoria do planejamento urbano, achei especialmente interessante a definição dada por Yehezkel Dror para o conceito de planejamento urbano:<br />
"Planejamento é o processo de preparar um conjunto de decisões para ação no futuro, dirigida à consecução de objetivos através dos meios preferidos." (DROR, 1973, p. 323) &#8230; <a href="https://urbanidades.arq.br/2011/02/13/definicao-de-planejamento-urbano-por-yehezkel-dror/" class="more-link"><span class="readmore">Leia mais...<span class="screen-reader-text">Definição de Planejamento Urbano por Yehezkel Dror</span></span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Apesar de não ser um autor muito conhecido no que diz respeito à teoria do planejamento, achei especialmente interessante a definição dada por Yehezkel Dror para o conceito de planejamento urbano:</p>
<blockquote><p>&#8220;Planejamento é o processo de preparar um conjunto de decisões para ação futura, dirigida à consecução de objetivos através dos meios preferidos.&#8221; (DROR, 1973, p. 323)</p></blockquote>
<p>Apesar de muito simples e incrivelmente sucinta, essa definição é bastante abrangente e inclui os aspectos mais importantes de uma aproximação ao conceito de planejamento urbano.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://urbanidades.arq.br/wp-content/uploads/2011/02/planning.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-866" title="planning" src="http://urbanidades.arq.br/wp-content/uploads/2011/02/planning.jpg" alt="" width="500" height="397" srcset="https://urbanidades.arq.br/wp-content/uploads/2011/02/planning.jpg 500w, https://urbanidades.arq.br/wp-content/uploads/2011/02/planning-300x238.jpg 300w, https://urbanidades.arq.br/wp-content/uploads/2011/02/planning-50x40.jpg 50w, https://urbanidades.arq.br/wp-content/uploads/2011/02/planning-200x159.jpg 200w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><br />
Fonte: <a href="http://accountplan.ning.com/photo/611711:Photo:30837" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>Em primeiro lugar, é um <strong>processo</strong>, caracterizado por atividades, interações, com maior ou menor encadeamento e ordenação entre elas. Esse processo deve ter como resultado a preparação de ações futuras, no sentido de &#8220;pré-selecionar&#8221; as ações que devem ser tomadas no futuro. Esse é um ponto importante, porque é comum haver uma certa tendência de &#8220;mesclar&#8221; as decisões de planejamento com as decisões de execução das ações propriamente ditas, como se fossem uma coisa só.</p>
<div class="olhos">As decisões emanadas do processo de planejamento não são as mesmas a serem tomadas no momento da implementação</div>
<p>Entretanto, as decisões realizadas no processo de planejamento não necessariamente serão obedecidas à risca no momento da implantação, como a realidade (especialmente no Brasil) tem constante e repetidamente nos mostrado. Ainda assim, há uma resistência em entender as decisões de planejamento como apenas uma das forças que influenciarão as escolhas futuras, e não como a única.</p>
<p>O segundo aspecto já foi discutido, que é a orientação ao <strong>futuro</strong>. Essa é uma dos poucos elementos que se repetem em quase todas as definições do conceito.</p>
<p>O terceiro aspecto são os <strong>objetivos</strong>. Sem eles, não há porque planejar. Muitos autores argumentam que é impossível determinar com precisão os objetivos, assim como identificar os objetivos gerais da sociedade (ou o interesse público). Isso é verdade, mas acredito que mesmo definições incompletas, nebulosas e/ou parciais dos objetivos são importantes para dar uma direção às ações futuras. O debate sobre os objetivos, além disso, pode suscitar interessantes trocas de informações entre setores da sociedade que tradicionalmente têm se mantido isoladas e sem interlocução. Pela minha experiência, a possibilidade de consenso entre esses setores é muito maior do que era suposto inicialmente.</p>
<p>Por fim, os <strong>meios</strong>. A palavra &#8220;preferidos&#8221; indica bem o fato de que os meios não são automaticamente dados pelos objetivos consensuados. Mesmo que haja consenso sobre os objetivos, é provável que haja muita discordância com relação aos meios considerados mais adequados para alcançá-los. Em outro post, já falamos sobre os riscos dos <a href="http://urbanidades.arq.br/2007/09/objetivos-genericos/" target="_self">objetivos muito genéricos</a>. Ao torná-los mais concretos, específicos, os reais conflitos tendem a ficar mais visíveis.</p>
<p>Além disso, nossa capacidade de prever as consequências dos possíveis meios, ou seja, de prever até que ponto eles serão suficientes ou não para atingir os objetivos, é muito limitada. Em assuntos urbanos, os <a href="http://urbanidades.arq.br/2007/07/problemas-capciosos/" target="_blank">problemas são capciosos</a>, e é muito difícil tirar lições de outras situações e ter a convicção necessária para aplicá-las no problema enfrentado no momento. Isso sem falar nas limitações cognitivas sobre a estimativa de probabilidades, estudada por <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Amos_Tversky" target="_blank">Tversky </a>e Kahneman, que inserem várias imprecisões nas nossas previsões sobre os efeitos futuros de ações.</p>
<h3>Referências bibliográficas</h3>
<p>DROR, Yehezkel. The planning process: a facet design. In: FALUDI, Andreas (org.) <strong>A reader in planning theory</strong>. Oxford: Pergamon Press, 1973. p. 323 &#8211; 343. (Artigo publicado originalmente em 1963).</p>The post <a href="https://urbanidades.arq.br/2011/02/13/definicao-de-planejamento-urbano-por-yehezkel-dror/">Definição de Planejamento Urbano por Yehezkel Dror</a> first appeared on <a href="https://urbanidades.arq.br">Urbanidades</a>.]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>A visão tradicional de planos diretores</title>
		<link>https://urbanidades.arq.br/2008/11/25/a-visao-tradicional-de-planos-diretores/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Renato Saboya]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Nov 2008 13:35:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Este post comenta algumas características dos planos diretores tradicionais, tais como a ênfase no zoneamento, o caráter tecnocrático, a falta de visão estratégica e a negligência com relação à cidade informal. &#8230; <a href="https://urbanidades.arq.br/2008/11/25/a-visao-tradicional-de-planos-diretores/" class="more-link"><span class="readmore">Leia mais...<span class="screen-reader-text">A visão tradicional de planos diretores</span></span></a></p>
The post <a href="https://urbanidades.arq.br/2008/11/25/a-visao-tradicional-de-planos-diretores/">A visão tradicional de planos diretores</a> first appeared on <a href="https://urbanidades.arq.br">Urbanidades</a>.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Já vimos em um post anterior, que fala um pouco sobre a <a title="história do planejamento urbano e dos planos diretores no Brasil" href="http://urbanidades.arq.br/2008/11/urbanismo-e-planejamento-urbano-no-brasil-1875-a-1992/" target="_blank">história do planejamento urbano e dos planos diretores no Brasil</a>, que a grande maioria dos <a title="plano diretor" href="http://urbanidades.arq.br/2008/06/o-que-e-plano-diretor/" target="_blank">planos diretores </a>realizados no Brasil, especialmente a partir da década de 60, eram excessivamente genéricos, compostos por diretrizes e objetivos gerais que, na prática, faziam muito pouco para orientar as ações do Poder Público. Talvez por essa falta de consistência nos planos diretores e também pela falta de disposição em segui-los, a visão tradicional de plano diretor seja fortemente associada à de zoneamento (FELDMAN, 1997), afinal é um dos poucos instrumentos relativamente respeitados (com todas as exceções que bem conhecemos, naturalmente). Ainda hoje é muito comum, mesmo entre os profissionais da área de planejamento urbano, associar plano diretor com lei de uso e ocupação do solo (ou lei de zoneamento). Segundo Feldman (1997), o zoneamento que abrange todo o território da cidade e o divide em zonas é até hoje o principal instrumento de planejamento na maioria das cidades.</p>
<div class="olhos">Os planos diretores tradicionais estavam fortemente vinculados à noção de zoneamento</div>
<p>Conforme também já vimos em outro post, o <a title="zoneamento e planos diretores" href="http://urbanidades.arq.br/2007/11/zoneamento-e-planos-diretores/" target="_blank">zoneamento</a> divide a cidade (normalmente apenas a área urbana) em zonas teoricamente homogêneas dentro das quais as mesmas diretrizes espaciais são aplicadas. Essas diretrizes limitam-se, normalmente, a estipular índices máximos relativos à <a title="taxa de ocupação e índice de aproveitamento máximo" href="http://urbanidades.arq.br/2007/12/taxa-de-ocupacao-e-coeficiente-de-aproveitamento/" target="_blank">taxa de ocupação, índice de aproveitamento máximo do lote</a>, número máximo de pavimentos e afastamentos frontais e laterais, assim como os usos permitidos em cada uma das zonas. Muitas vezes esse mapa de zoneamento é o único mapa a integrar a lei do plano.</p>
<p><a href="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/Avisotradicionaldeplanosdiretores_10857/zoneamento_1955.jpg"><img decoding="async" style="border-width: 0px;" src="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/Avisotradicionaldeplanosdiretores_10857/zoneamento_1955_thumb.jpg" border="0" alt="zoneamento_sao_paulo_1952" width="500" height="381" /></a><br />
<span class="legendas">Zoneamento do plano diretor de São Paulo &#8211; 1952. Fonte: <a href="http://www.usp.br/fau/docentes/depprojeto/e_nobre/AUP274/metropole_industrial.htm" target="_blank">aqui</a>.</span></p>
<p>Outra característica dos plano diretores tradicionais é o seu caráter tecnocrático, visto que esses planos costumavam ser elaborados exclusivamente por técnicos que se mantinham distantes da população e ditavam os rumos que a cidade deveria seguir, assim como os meios necessários para chegar lá. Assim, os técnicos acreditavam não apenas dominar o instrumental necessário para intervir sobre o sistema urbano e corrigir seus rumos, como também acreditavam saber quais seriam esses rumos.</p>
<p>Villaça (1999) acrescenta ainda que os planos tradicionais costumavam abranger não apenas os aspectos físico-territoriais, mas também aspectos econômicos, sociais, etc. Segundo o autor, isso era mais uma estratégia das classes dominantes para desmoralizar o plano diretor, que por tentar abranger tudo acabava não funcionando para nada. Esse ponto, entretanto, é polêmico. Muitos autores defendem a necessidade de que o plano não se limite aos aspectos físico-territoriais, para que as possibilidades de intervenção na realidade não fiquem prejudicadas (ver, por exemplo, SOUZA, 2003).</p>
<p>Entretanto, parece haver consenso no fato de que os planos não eram seguido pelos gestores públicos. Villaça (1999) atribui isso à incapacidade das classes dominantes, após um certo período, de impor suas &#8220;soluções&#8221; para as cidades. Assim, os planos serviam como respostas de fachada, explícitas, enquanto que os investimentos e as obras públicas seguiam outra direção, implícita, esta sim alinhada com os seus interesses. Mas além disso os planos possuíam outras características que aumentavam as probabilidades de serem engavetados e nunca mais utilizados.</p>
<p>Uma delas era o não reconhecimento dos conflitos inerentes à convivência em sociedade, especialmente em uma sociedade tão desigual como a nossa. Os objetivos eram definidos como se fossem valores universais e incontestáveis, e como se não precisassem ser exaustivamente discutidos para que as diferentes visões pudessem se manifestar e chegar a um mínimo de consenso.</p>
<h3>Sintetizando:</h3>
<p>Em síntese, portanto, os planos diretores tradicionais:</p>
<ol>
<li>classificavam o solo urbano segundo usos e padrões de ocupação;</li>
<li>eram elaborados de forma tecnocrática;</li>
<li>impunham normas predominantemente aos agentes privados;</li>
<li>regulavam o uso do solo e formas de crescimento urbano através do zoneamento;</li>
<li>eram de alta complexidade por conta da visão tecnocrática;</li>
<li>tratavam a cidade como objeto puramente técnico, onde a prioridade era apenas estabelecer padrões de qualidade para seu funcionamento;</li>
<li>não reconheciam as dimensões dos conflitos espaciais, sociais e econômicos;</li>
<li>não reconheciam a desigualdade das condições de renda e seus reflexos na formação do tecido urbano e do mercado imobiliário;</li>
<li>idealizavam um projeto ideal de cidade a ser concretizado num horizonte de tempo incerto;</li>
<li>possuíam normas urbanísticas e de uso de solo excessivamente rígidas;</li>
<li>por ignorarem a cidade &#8220;Ilegal&#8221;, acabavam acentuando a separação entre esta e a cidade “legal”;</li>
<li>davam pouca consideração aos aspectos financeiros de implementação do plano.</li>
</ol>
<h3>Veja também:</h3>
<ul>
<li><a href="http://urbanidades.arq.br/2008/06/o-que-e-plano-diretor/">O que é plano diretor?</a></li>
<li><a title="Editar &quot;Planos Diretores contestados&quot;" href="http://urbanidades.arq.br/2008/05/planos-diretores-contestados/">Planos Diretores contestados</a></li>
<li><a title="Instrumentos urbanísticos" href="http://urbanidades.arq.br/category/instrumentos-urbanisticos/" target="_blank">Instrumentos urbanísticos</a></li>
<li><a title="Estatuto da Cidade" href="http://urbanidades.arq.br/2008/02/estatuto-da-cidade-breve-historico/" target="_blank">Estatuto da Cidade &#8211; breve histórico</a></li>
<li><a href="http://urbanidades.arq.br/2007/06/banco-de-experincias-em-pdp-do-ministrio-das-cidades/" target="_blank">Banco de Experiências em PDP do Ministério das Cidades</a></li>
</ul>
<h3>Referências bibliográficas</h3>
<p>SOUZA, Marcelo Lopes. <strong>Mudar a cidade: uma introdução crítica ao planejamento e à gestão urbanos</strong>. 2 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.</p>
<p>VILLAÇA, Flávio. Uma contribuição para a história do planejamento urbano no Brasil. In: DEÁK, Csaba; SCHIFFER, Sueli Ramos (org.) <strong>O processo de urbanização no Brasil</strong>. São Paulo: EdUSP, 1999. p. 169 &#8211; 243.</p>The post <a href="https://urbanidades.arq.br/2008/11/25/a-visao-tradicional-de-planos-diretores/">A visão tradicional de planos diretores</a> first appeared on <a href="https://urbanidades.arq.br">Urbanidades</a>.]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Urbanismo e planejamento urbano no Brasil – 1875 a 1992</title>
		<link>https://urbanidades.arq.br/2008/11/10/urbanismo-e-planejamento-urbano-no-brasil-1875-a-1992/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Renato Saboya]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Nov 2008 00:59:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Villaça (1999), em um artigo intitulado “Uma contribuição para a história do planejamento urbano no Brasil”, faz uma revisão da idéia de planejamento e de planos urbanos brasileiros desde 1897<a href="https://urbanidades.arq.br/2008/11/10/urbanismo-e-planejamento-urbano-no-brasil-1875-a-1992/" class="more-link"><span class="readmore">Leia mais...<span class="screen-reader-text">Urbanismo e planejamento urbano no Brasil – 1875 a 1992</span></span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Villaça (1999), em um artigo intitulado “Uma contribuição para a história do planejamento urbano no Brasil”, faz uma revisão da idéia de planejamento e de planos urbanos brasileiros desde 1897 até a atualidade. Seu objeto de estudo é o que ele chama de “Planejamento strictu sensu”, cuja definição está relacionada à elaboração de planos urbanos. Essa definição contrapõe-se à de “planejamento urbano latu sensu”, que englobaria as seguintes vertentes:</p>
<ul>
<li>Planejamento strictu sensu;</li>
<li>O zoneamento;</li>
<li>O planejamento de cidades novas;</li>
<li>O “Urbanimo sanitarista”.</li>
</ul>
<p>Especificamente a consideração do zoneamento como uma vertente separada do planejamento strictu sensu não fica totalmente justificada ao longo do texto, apesar do autor reiterar várias vezes que, via de regra, o zoneamento percorreu caminhos distintos deste ao longo da história. Considerações mais aprofundadas sobre esse ponto serão feitas ao final.</p>
<p>Cruzando o texto acima mencionado com textos do livro “A formação do pensamento urbanístico no Brasil: 1895-1965”, de Maria Cristina da Silva Leme, é possível esboçar uma divisão geral (e aproximada) das etapas pelas quais o planejamento urbano passou no Brasil:</p>
<ul>
<li>1ª fase – planos de embelezamento (1875 – 1930)</li>
<li>2ª fase – planos de conjunto (1930 – 1965)</li>
<li>3ª fase – planos de desenvolvimento integrado (1965 – 1971)</li>
<li>4ª fase – planos sem mapas (1971 – 1992)</li>
</ul>
<h3>1ª fase – planos de embelezamento</h3>
<p>“Foi sob a égide dos planos de embelezamento que surgiu o planejamento urbano (latu sensu) brasileiro. (VILLAÇA, 1999, p. 193). Eram planos que provinham da tradição européia, principalmente, e consistiam basicamente no alargamento de vias, erradicação de ocupações de baixa renda nas áreas mais centrais, implementação de infra-estrutura, especialmente de saneamento, e ajardinamento de parques e praças (VILLAÇA, 1999; LEME, 1999). Leme (1999) também cita a criação de uma legislação urbanística nesses planos, bem como a reforma e reurbanização das áreas portuárias. Além disso, geralmente se limitavam a intervenções pontuais em áreas específicas, na maioria das vezes o Centro da cidade.</p>
<p>Grande parte desses planos previam abertura de novas avenidas, conectando partes importantes da cidade, geralmente tendo como consquência imediata a destruição de áreas consideradas insalubres, compostas pelos chamados “cortiços”.</p>
<p>O principal representante desse período foi o Engenheiro Saturnino de Brito, que realizou planos de saneamento para várias cidades brasileiras. Em algumas delas, os planos também incluíam diretrizes para a expansão urbana, como foi o caso em Vitória (1896), Santos e Recife (1909-1915).</p>
<p><a title="Plano Pereira Passos" href="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/pereira_passos_01.jpg" target="_blank"><img decoding="async" class="alignright" title="Plano Pereira Passos" src="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/pereira_passos_01_tn.jpg" alt="" width="240" height="159" /></a>Um dos planos mais representativos é o de Pereira Passos para o Rio de Janeiro. Tendo trabalhado na administração pública do Município anteriormente, Pereira Passos havia participado da elaboração do Plano de Melhoramentos de 1875. Ao tornar-se prefeito, adotou uma nova versão desse plano de melhoramentos, publicada em 1903, e que previa uma série de obras para o embelezamento da cidade.</p>
<p>Entre as principais, destacam-se a criação da Av. Central (atual Av. Rio Branco) (1), da Av.Beira Mar (2), conectando a Av. Rio Branco até o fim da Praia de Botafogo, e da Av. Mem de Sá (3), ligando a Lapa à Tijuca e a São Cristóvão (LEME, 1999, p. 24).</p>
<p>Villaça (1999) argumenta que, neste período, os planos eram discutidos abertamente antes de serem implementados, e, ao contrário do que aconteceria no futuro, os planos eram efetivamente implementados. Segundo ele, isso era possível porque o caráter hegemônico da classe dominante era tão acentuado que lhe era possível impor o conjunto de soluções que lhe parecesse mais adequado, sem se preocupar em encontrar subterfúgios para ocultar suas verdadeiras intenções.</p>
<h3>2ª fase – planos de conjunto</h3>
<p>Aos poucos, os planos passaram a incluir toda a cidade, e a se preocupar com a integração das diretrizes para todo o território do Município, e não apenas para algumas áreas específicas. Buscam a articulação entre o Centro e os bairros, e destes entre si, através de sistemas de vias e de transportes (LEME, 1999, p. 25). As vias não são pensadas apenas em termos de embelezamento, mas também em termos de transporte (VILLAÇA, 1999).</p>
<p>Segundo Leme (1999), é a partir desta data que começam a serem feitos os zoneamentos, bem como a legislação urbanística de controle do uso e ocupação do solo. Villaça (1999), entretanto, argumenta que desde 1866 já existiam dispositivos que consistiam em rudimentos de zoneamento, uma vez que proibiam a instalação de cortiços e vilas operárias em determinadas áreas da cidade.</p>
<p>Um dos principais representantes desse novo tipo de plano é o Plano de Avenidas de Prestes Maia para São Paulo, elaborado em 1930. Apesar do nome, segundo Villaça (1999) o plano tratava sobre vários aspectos do sistema urbano, tais como as estradas de ferro e o metrô, a legislação urbanística, o embelezamento urbano e a habitação. Entretanto, o destaque foi mesmo o plano de avenidas, que possuíam um caráter monumental.</p>
<p>Segundo Leme (1999), o conjunto de novas vias radiais e perimetrais transformou a cidade concentrada e baseada na locomoção por transporte coletivo (ônibus e bondes) em uma cidade mais dispersa e dependente do tráfego de automóveis.</p>
<p class="olhos">O plano de Agache pode ser considerado o pioneiro dos &#8220;superplanos&#8221;</p>
<p>Outro representante é o <strong>Plano de Alfred Agache</strong>, para o Rio de Janeiro (também elaborado em 1930). Esse plano marca uma transição dos planos de embelezamentos, para os “superplanos”, que viriam a ser desenvolvidos nas décadas de 60 e 70 (VILLAÇA, 1999). Ele traz também a idéia de cientificismo à elaboração de planos urbanos, como se os problemas da cidade só pudessem ser realizados com o auxílio da ciência e da técnica. Com efeito, uma das características desse plano é o extenso diagnóstico realizado.</p>
<p align="center"><a href="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/UrbanismoeplanejamentourbanonoBrasil1875_1409D/agache_01.png"><img loading="lazy" decoding="async" style="border-right: 0px; border-top: 0px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" src="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/UrbanismoeplanejamentourbanonoBrasil1875_1409D/agache_01_thumb.png" border="0" alt="agache_01" width="500" height="400" /></a><br />
<span class="legendas">Fonte: Leme (1999, p. 363)</span></p>
<p>Entre os temas tratados no plano de Agache estão a remodelação imobiliária, o abastecimento de água, a coleta de esgoto, o combate a inundações e a limpeza pública (VILLAÇA, 1999).</p>
<p>Ao final, conforme Villaça (1999, p. 207), há um “detalhado conjunto de leis urbanísticas [&#8230;] versando sobre loteamentos, desapropriações, gabaritos, edificações e estética urbana.” Curiosamente, entretanto, esse mesmo autor afirma, mais adiante, que o zoneamento não foi desenvolvido. Fica a questão: como foram trabalhadas essas diretrizes da lei urbanística sobre gabaritos e edificações, se não na forma de um zoneamento? Aumentando a confusão sobre o assunto, Leme (1999) diz explicitamente que o Plano de Agache baseou-se em grande medida exatamente no zoneamento, contradizendo o argumento de Villaça (1999).</p>
<p>É evidenciada a sua intenção de ordenamento da cidade, usando para isso especialmente o zoneamento (zoning), e também a legislação urbanística. [&#8230;] O principal instrumento de intervenção adotado é o zoneamento, muito utilizado à época. (LEME, 1999, p. 362).</p>
<p>Para resolver essa duvida, apenas recorrendo diretamente ao próprio plano, o que até o momento não foi possível.</p>
<p>Ainda segundo Leme (1999), o plano é dividido em três partes: a primeira traz um estudo sobre os componentes antropogeográficos do Rio de Janeiro e os grande problemas sanitários; a segunda pode ser considerada a essência do plano, e define o modelo de cidade ideal e as proposições para alcançá-la; a terceira dedica-se ao saneamento.</p>
<h3>3ª fase – planos de desenvolvimento integrado (1965 – 1971)</h3>
<p>A terceira fase é marcada pela incorporação de outros aspectos aos planos, além daqueles estritamente físico-territoriais, tais como os aspectos econômicos e sociais. Segundo Villaça (1999), as principais características dos planos desse período são:</p>
<p class="olhos">Nesta fase os planos vão cada vez mais se distanciando da viabilidade da sua implementação.</p>
<p>1) Distanciamento entre as propostas contidas nos planos, por um lado, e as possibilidades de que essas propostas sejam efetivamente implementadas, por outro;</p>
<p>2) Conflito entre propostas cada vez mais abrangentes, e estruturas administrativas cada vez mais setorializadas e especializadas;</p>
<p>3) Dificuldades e indefinições quanto à aprovação dos planos, uma vez que até então estes eram da alçada do Executivo e, a partir da incorporação de leis e recomendações das mais diversas naturezas, passaram a ser também da alçada do Legislativo.</p>
<p>Quanto mais complexos e abrangentes tornavam-se os planos, mais crescia a variedade de problemas sociais nos quais se envolviam e com isso mais se afastavam dos interesses reais da classe dominante e portanto das suas possibilidades de aplicação. (VILLAÇA, 1999, p. 214).</p>
<p>O principal exemplo desse tipo de plano é o Plano Doxiadis para o Rio de Janeiro, em 1965. O volume, elaborado por um escritório grego e publicado em inglês, possuía “quase quinhentas páginas de estudos técnicos, das quais nove – páginas 363 a 372 – são de implementation e uma única, a 375, é de recommendations.” (VILLAÇA, 1999, p. 213).</p>
<p align="center"><a href="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/UrbanismoeplanejamentourbanonoBrasil1875_1409D/Doxiadis_01_zoneamento.png"><img loading="lazy" decoding="async" style="border-right: 0px; border-top: 0px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" src="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/UrbanismoeplanejamentourbanonoBrasil1875_1409D/Doxiadis_01_zoneamento_thumb.png" border="0" alt="Doxiadis_01_zoneamento" width="500" height="340" /></a><br />
<span class="legendas">Fonte: Leme (1999, p. 359)</span></p>
<p>Leme (1999, p. 373), entretanto, argumenta que, apesar de realizar um amplo diagnóstico econômico e social, além de urbanístico, o Plano Doxiadis é eminentemente físico-territorial nas suas proposições. Partindo de um modelo ideal baseado em comunidades de diferentes tamanhos e hierarquias interdependentes, propõe uma série de diretrizes necessárias para alcançá-lo. Entre elas, está a previsão de acomodação para o crescimento da população em 35 anos, até o ano 2000, baseada em estimativas numéricas a serem revisadas de 5 em 5 anos.</p>
<h3>4ª fase – planos sem mapas (1971 – 1992)</h3>
<p>Por fim, provavelmente como resposta aos maus resultados provenientes da não aplicação dos superplanos, que acabavam sendo relegados às prateleiras, passaram a ser elaborados planos que abriam mão dos diagnósticos técnicos extensos e, até mesmo, dos mapas espacializando as propostas.</p>
<p>“Nos anos de 1970, os planos passam da complexidade, do rebuscamento técnico e da sofisticação intelectual para o plano singelo, simples – na verdade, simplório – feito pelos próprios técnicos municipais, quase sem mapas, sem diagnósticos técnicos ou com diagnósticos reduzidos se confrontados com os de dez anos antes.” (VILLAÇA, 1999, p. 221).</p>
<p>Esses planos apenas enumeravam um certo conjunto de objetivos e diretrizes genéricas e, assim, acabavam ocultando os conflitos inerentes à diversidade de interesses relativos ao espaço urbano.</p>
<h3>E o zoneamento?</h3>
<p>Retomando a questão da separação entre o zoneamento e o planejamento strictu sensu, permanecem as dúvidas quanto à adequação de tal procedimento. Embora esteja claro que muitas vezes o zoneamento foi elaborado de forma independente do planejamento mais abrangente da cidade, também parece claro que a grande maioria dos planos mais importantes do Brasil (inclusive os citados por Villaça) utilizaram, sim, o zoneamento como parte integrante de suas diretrizes e proposições. Conforme citado acima, o Plano Agache é baseado no zoneamento, ao menos segundo a interpretação de Leme (1999). O plano Doxiadis também apresenta um zoneamento, conforme pôde ser visto na Figura apresentada.</p>
<p>Por outro lado, o argumento de Villaça de que os planos deixaram de ser seguidos porque os interesses que os inspiraram não podiam mais ser explicitados com tanta facilidade quanto no início do século XX parece perfeito. Entretanto, não nos parece que tal argumento valha apenas para o planejamento strictu sensu, mas também para o zoneamento, independentemente de considerarmos este como parte integrante ou não daquele.</p>
<p>Caso seja considerado uma parte integrante, valem os argumentos já apresentados por Villaça para os planos urbano. Caso seja considerado uma vertente separada, podemos argumentar que os interesses que os têm motivado são, da mesma forma, ocultados pelas classes dominantes sob justificativas que, nem sempre, correspondem à realidade.</p>
<p>Esses interesses incluem muito mais a proteção do valor de propriedades fundiárias e a possibilidade de extração de lucros através da produção imobiliária do que objetivos nobres de função social ou redistribuição de renda. A grande diferença é que esses reais interesse podem ser mais facilmente escondidos no zoneamento do que em outros tipos de diretrizes com o mesmo nível de especifidade. Para a população em geral, é mais difícil entender os diversos índices e parâmetros urbanísticos associados ao zoneamento, do que, por exemplo, um plano de avenidas ou um plano para a criação de um sistema de áreas verdes, ou de destruição e reconstrução de áreas da cidade.</p>
<p>Dessa forma, o zoneamento, na minha opinião, não é uma vertente separada da elaboração de planos urbanos; é, isso sim, um instrumento de política urbana que tem sido considerado mais adequado para camuflar os interesses das classes dominantes e conduzir o desenvolvimento urbano na direção desses interesses.</p>
<p>Isso não quer dizer, entretanto, que o zoneamento não tenha utilidade ou que devamos abrir mão dele. Pelo contrário: acredito que pode ser um instrumento útil, contanto que esteja integrado aos outros instrumentos à disposição do planejador e dos cidadãos. A questão, apesar disso, permanece: como fazer, então, para que os planos sejam realmente cumpridos?</p>
<h3>Referências bibliográficas</h3>
<p>LEME, Maria Cristina da Silva. A formação do pensamento urbanístico no Brasil: 1895-1965. In: LEME, Maria Cristina da Silva; FERNANDES, Ana; GOMES, Marco Aurelio Filgueiras (org.) <strong>Urbanismo no Brasil 1895-1965</strong>. São Paulo: Studio Nobel/FAU USP/FUPAM, 1999.</p>
<p>VILLAÇA, Flávio. Uma contribuição para a história do planejamento urbano no Brasil. In: DEÁK, Csaba; SCHIFFER, Sueli Ramos (org.) <strong>O processo de urbanização no Brasil</strong>. São Paulo: EdUSP, 1999. p. 169 &#8211; 243.</p>The post <a href="https://urbanidades.arq.br/2008/11/10/urbanismo-e-planejamento-urbano-no-brasil-1875-a-1992/">Urbanismo e planejamento urbano no Brasil – 1875 a 1992</a> first appeared on <a href="https://urbanidades.arq.br">Urbanidades</a>.]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>O planejamento sistêmico/racional-abrangente</title>
		<link>https://urbanidades.arq.br/2008/09/14/o-planejamento-sistemico-racional-abrangente/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Renato Saboya]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Sep 2008 02:54:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[artigos clássicos]]></category>
		<category><![CDATA[objetivos]]></category>
		<category><![CDATA[planejamento estratégico]]></category>
		<category><![CDATA[planejamento urbano]]></category>
		<category><![CDATA[teoria do planejamento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Conforme vimos em um post anterior (O urbanismo), as primeiras abordagens de intervenção em cidades eram muito mais ligadas à tradição arquitetônica do que à do planejamento urbano como nós<a href="https://urbanidades.arq.br/2008/09/14/o-planejamento-sistemico-racional-abrangente/" class="more-link"><span class="readmore">Leia mais...<span class="screen-reader-text">O planejamento sistêmico/racional-abrangente</span></span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Conforme vimos em um post anterior (<a title="O urbanismo" href="http://urbanidades.arq.br/2008/02/o-urbanismo/">O urbanismo</a>), as primeiras abordagens de intervenção em cidades eram muito mais ligadas à tradição arquitetônica do que à do planejamento urbano como nós o conhecemos atualmente. Havia, portanto, a concepção de plano como um <em>design</em> físico, um projeto de cidade a ser alcançado dentro de um certo período de tempo. A cidade não era vista como um organismo em evolução, ou, ao menos, os instrumentos de intervenção sobre a cidade não levavam em consideração a evolução do sistema urbano, apenas seu estado final.<span id="more-151"></span></p>
<blockquote><p>Teorias sobre o planejamento urbano nessa época estavam usualmente preocupadas com projetos ou planos visionários que mostravam como a cidade ideal deveria ser espacialmente organizada. (TAYLOR, 1998, p. 16)</p></blockquote>
<p>Essa visão começou a se modificar apenas na década de 60 do século XX, apesar de Geddes já defender o caráter dinâmico das cidades desde seu trabalho “Cidades em evolução”, de 1915. Geddes propôs a famosa seqüência “pesquisa – análise – proposta” que, segundo Hall (2002), foi a primeira estruturação lógica do planejamento urbano, que até então baseava-se muito mais na intuição e experiência de seus autores do que em um conhecimento obtido sistematicamente ou cientificamente a partir das condições reais das cidades.</p>
<h3>A cidade como um sistema dinâmico</h3>
<p>Entretanto, essa mudança foi realmente consolidada com o advento do planejamento sistêmico, que representou</p>
<blockquote><p>[&#8230;] uma mudança da velha idéia de planejamento como a produção de projetos para cidade desejada do futuro para uma nova idéia de planejamento como uma série contínua de controles sobre o desenvolvimento de uma área, auxiliados por mecanismos que buscam simular o processo de desenvolvimento de forma que esse controle possa ser aplicado. (HALL, 2002, p. 6)</p></blockquote>
<p><!--more-->Brian McLoughlin, em seu clássico livro “<em>Urban &amp; regional planning: a systems approach</em>” (MCLOUGHLIN, 1969), lança as bases do planejamento sistêmico. Segundo ele, a cidade é um sistema composto por partes (as atividades humanas e os espaços que as suportam) intimamente conectadas (fluxos e canais de circulação). Por isso, para intervir nesse sistema não é mais suficiente o exclusivamente enfoque espacial dos arquitetos (segundo sua visão)  , dominante até então. Ao contrário, é necessário reconhecer o caráter dinâmico e sistêmico das cidades.</p>
<p align="center"><a href="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/Oplanejamentoracionalabrangentesistmico_146DD/mac_loughlin_system_01_640.png"><img loading="lazy" decoding="async" style="border-right: 0px; border-top: 0px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" src="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/Oplanejamentoracionalabrangentesistmico_146DD/mac_loughlin_system_01_640_thumb.png" border="0" alt="mac_loughlin_system_01_640" width="500" height="258" /></a><br />
<span class="legendas">A cidade vista como um sistema composto por sub-sistemas e, por sua vez, parte de um sistema mais amplo. Fonte: McLoughlin (1969, p. 76)</span></p>
<p>Partindo desse argumento, McLoughlin propõe uma seqüência de etapas que devem ser seguidas durante o processo de planejamento e que, ao contrário da tradição arquitetônica, não acaba com a seleção das ações a serem implementadas (ou, no caso dos arquitetos, com o projeto físico da área). O processo de planejamento, portanto, passa a ser visto como um processo cíclico, no qual os resultados alcançados pelas ações passam a servir de objeto de análise que gera retroalimentações para as outras fases do processo.</p>
<p>A primeira etapa é uma <strong>avaliação preliminar</strong> do sistema (“<em>scan the environment</em>”). Nela são identificados os primeiros problemas, desejos ou insatisfações com a realidade, que por sua vez fornecem a motivação inicial para que o processo de planejamento propriamente dito seja desencadeado.</p>
<p>A partir disso, os <strong>objetivos devem ser formulados</strong>. Essa é uma parte fundamental segundo McLoughlin, uma vez que uma série de decisões posteriores derivam dessa seleção inicial de objetivos. Além disso, é com base neles que a avaliação das alternativas de ação deve ser feita.</p>
<p>A seguir deve-se fazer a <strong>descrição e simulação do sistema</strong>, que consiste em representar o sistema urbano de forma que ele possa ser modelado e que seu funcionamento possa ser entendido e testado sob circunstâncias diversas. Os objetivos dessa etapa são esclarecer os problemas a serem enfrentados, entender o contexto em que se está atuando e delimitar quantitativamente os limites do que é possível ou provável.</p>
<p>O passo seguinte é delinear possíveis <strong>cursos de ação</strong>. Também chamados de alternativas, esses cursos de ação representam os meios necessários para atingir os fins desejados. Portanto, sua criação deve estar intimamente relacionada a esses fins, ou objetivos. Para McLoughlin, os cursos de ação são representados por “caminhos” alternativos a serem seguidos pelo sistema durante sua evolução. Em outras palavras, cada alternativa é uma seqüência de estados do sistema, no que diz respeito a configurações de atividades, espaços, fluxos e canais, para horizontes de tempo (por exemplo, de cinco em cinco anos).</p>
<p>As alternativas devem ser avaliadas segundo os objetivos definidos. Essa <strong>avaliação</strong> deve começar nos níveis mais genéricos em que as alternativas se encontram. Aquela ou aquelas consideradas as mais adequadas são <strong>selecionadas </strong>e desenvolvidas mais detalhadamente e reavaliadas, num processo iterativo até que a alternativa final seja alcançada.</p>
<p align="center"><a href="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/Oplanejamentoracionalabrangentesistmico_146DD/mac_loughlin_system_02_640.png"><img loading="lazy" decoding="async" style="border-right: 0px; border-top: 0px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" src="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/Oplanejamentoracionalabrangentesistmico_146DD/mac_loughlin_system_02_640_thumb.png" border="0" alt="mac_loughlin_system_02_640" width="500" height="577" /></a><br />
<span class="legendas">Escolha da melhor trajetória (alternativa) em um determinado tempo T. Fonte: McLoughlin (1969, p. 232)</span></p>
<p>A <strong>implementação</strong> do plano envolve a orientação, o controle e a revisão das ações. A orientação funciona basicamente através de regulação das ações dos atores privados e de ações diretas do setor público. O controle busca descrever o estado atual do sistema e compará-lo com o que está previsto no plano. Dessa forma, eventuais desvios de rota podem ser usados como ponto de partida para revisões das orientações estipuladas.</p>
<p>Intimamente ligada à concepção do planejamento sistêmico está a noção do planejamento como um processo racional de tomada de decisões. De fato, tanto McLoughlin (1969) como Chadwick (1971 apud HALL, 2002), considerados os principais autores do planejamento sistêmico, defendem uma seqüência de etapas que ficou conhecida como planejamento racional. Taylor (1998) argumenta que planejamento sistêmico e planejamento racional são conceitos diferentes, ainda que interligados, uma vez que o primeiro é uma concepção relativa à substância, ou seja, ao objeto do planejamento (o sistema urbano), enquanto que o segundo é uma teoria sobre os procedimentos a serem obedecidos pelos planejadores. Entretanto, na prática as duas concepções acabaram sendo conhecidas e estudadas como uma só abordagem (sistêmico-racional).</p>
<p>Além disso, existe mais uma característica tradicionalmente associada ao planejamento racional, que é o aspecto abrangente (CULLINGWORTH; NADIN, 1997). Segundo esse aspecto, o plano deve ser abrangente no sentido de (KENT, 1964 apud INNES, 2004): a) cobrir toda a área da cidade (em oposição a um plano que trate apenas de um bairro ou área específica); b) lidar com todos os elementos físicos essenciais do sistema urbano; e c) reconhecer as ligações desses elementos com todos os outros fatores, físicos ou não, na escala local ou regional, que afetam o crescimento e o desenvolvimento urbano.</p>
<h3>As críticas ao planejamento sistêmico / racional</h3>
<p>Essa definição “racional” das etapas de planejamento tem sido muito criticada sob a alegação de que, na prática, as etapas não se sucedem da maneira linear como é sugerido. Lindblom (2003) foi um dos mais ferozes críticos desse tipo de planejamento. Ele argumenta que é impossível estabelecer previamente os objetivos do planejamento, para depois testar as alternativas possíveis. Em primeiro lugar, como sintetizar em um único conjunto de objetivos os desejos de um grupo de pessoas com valores e visões de mundo diversos? E, mesmo que isso seja possível ou que o planejador leve em conta apenas seus próprios objetivos, como estimar “pesos” entre objetivos conflitantes e de difícil quantificação? Segundo Lindblom, na prática essa comparação só acontece quando as alternativas de intervenção estão sendo testadas e comparadas e, portanto, a escolha final dos objetivos só acontece realmente quando se escolhe dentre as alternativas possíveis, abrindo mão de alguns resultados em favor de outros.</p>
<p>Além disso, segundo o autor é impossível que todos os aspectos relevantes sejam levados em consideração. As alternativas avaliadas devem limitar-se apenas àquelas que apresentam pequenas modificações com relação às políticas existentes atualmente. “Democracias mudam suas políticas quase sempre através de ajustes incrementais. Políticas não se movem em saltos.” (LINDBLOM, 2003, p. 203).</p>
<p>Outra crítica ao planejamento racional abrangente é feita por Hopkins (2001), que argumenta que as tarefas do planejador são, na realidade, muito difíceis de serem atribuídas a uma ou outra etapa do processo definido racionalmente. Isso quer dizer que muitas ações do planejador podem contribuir para mais de uma etapa ao mesmo tempo: por exemplo, um levantamento das condições locais, ao mesmo tempo em que possibilita o entendimento do sistema está sendo utilizado para construir objetivos, e para comunicar e discutir esses objetivos com a comunidade.</p>
<p>Portanto, o processo todo acaba sendo mais “confuso” do que o esquema do planejamento racional procura estabelecer, no sentido de que as atividades misturam-se em padrões complexos de relações. Entretanto, o próprio Hopkins defende a utilização do esquema racional de planejamento como uma referência para a qualidade do processo de planejamento, ao invés de utilizá-lo como uma seqüência rigorosa de passos a serem seguidos. Dessa forma, esse esquema de etapas pode ser usado, ao fim do processo, para verificar se ­- e de que maneira &#8211; elas foram cumpridas, ainda que não tenham sido seguidas à risca e na ordem “certa” durante a elaboração do plano.</p>
<h3>Referências bibliográficas</h3>
<p>CULLINGWORTH, J. Barry; NADIN, Vincent. <strong>Town &amp; country planning in the UK</strong>. 12th. ed. London: Routledge, 1997.<br />
HALL, Peter. <strong>Urban and regional planning</strong>. 4th ed. New York: Routledge, 2002.<br />
HOPKINS, Lewis. <strong>Urban development</strong>: the logic of making plans. Washington &#8211; DC: Island Press, 2001.<br />
INNES, Judith. Consensus building: clarifications for the critics. <strong>Planning Theory</strong>, v. 3, n. 1, p. 5 -20, 2004.<br />
LINDBLOM, Charles E. The science of &#8220;muddling through&#8221;. In: CAMPBELL, Scott; FAINSTEIN, Susan (org.) <strong>Readings in planning theory</strong>. Malden: Blackwell Publishing, 2003. (Artigo publicado originalmente em 1959).<br />
MC LOUGHLIN, J. Brian. <strong>Urban &amp; regional planning</strong>: a systems approach. London: Faber and Faber, 1969.<br />
TAYLOR, Nigel. <strong>Urban planning theory since 1945</strong>. London: Sage, 1998.</p>
<h3>Veja também:</h3>
<ul>
<li><a title="O urbanismo" href="http://urbanidades.arq.br/2008/02/o-urbanismo/">O urbanismo</a></li>
<li><a title="O surgimento do planejamento urbano" href="http://urbanidades.arq.br/2008/03/o-surgimento-do-planejamento-urbano/">O surgimento do planejamento urbano</a></li>
</ul>The post <a href="https://urbanidades.arq.br/2008/09/14/o-planejamento-sistemico-racional-abrangente/">O planejamento sistêmico/racional-abrangente</a> first appeared on <a href="https://urbanidades.arq.br">Urbanidades</a>.]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O que é plano diretor?</title>
		<link>https://urbanidades.arq.br/2008/06/13/o-que-e-plano-diretor/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Renato Saboya]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Jun 2008 17:51:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[gestão democrática]]></category>
		<category><![CDATA[planejamento urbano]]></category>
		<category><![CDATA[planos diretores]]></category>
		<category><![CDATA[teoria do planejamento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Não é tarefa fácil construir uma definição do que seja um plano diretor, uma vez que estes têm sido alvo de diversas definições e conceituações, e suas características têm variado<a href="https://urbanidades.arq.br/2008/06/13/o-que-e-plano-diretor/" class="more-link"><span class="readmore">Leia mais...<span class="screen-reader-text">O que é plano diretor?</span></span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Não é tarefa fácil construir uma definição do que seja um plano diretor, uma vez que estes têm sido alvo de diversas definições e conceituações, e suas características têm variado de município para município. Percebendo isso, Villaça (1999) enfatiza a falta de uma conceituação amplamente aceita para o que seja plano diretor, argumentando que não existe um consenso entre os atores envolvidos na sua elaboração e utilização – engenheiros, urbanistas, empreendedores imobiliários, proprietários fundiários, etc. – quanto ao que seja exatamente esse instrumento.<span id="more-115"></span></p>
<p>Algumas tentativas de definição:</p>
<blockquote><p>[Plano diretor é o] Instrumento básico de um processo de planejamento municipal para a implantação da política de desenvolvimento urbano, norteando a ação dos agentes públicos e privados. (ABNT, 1991)</p></blockquote>
<blockquote><p>Seria um plano que, a partir de um diagnóstico científico da realidade física, social, econômica, política e administrativa da cidade, do município e de sua região, apresentaria um conjunto de propostas para o futuro desenvolvimento socioeconômico e futura organização espacial dos usos do solo urbano, das redes de infra-estrutura e de elementos fundamentais da estrutura urbana, para a cidade e para o município, propostas estas definidas para curto, médio e longo prazos, e aprovadas por lei municipal. (VILLAÇA, 1999, p. 238)</p></blockquote>
<blockquote><p>É <em>plano</em>, porque estabelece os objetivos a serem atingidos, o prazo em que estes devem ser alcançados [&#8230;], as atividades a serem executadas e quem deve executá-las. É <em>diretor</em>, porque fixa as <em>diretrizes</em> do desenvolvimento urbano do Município. (SILVA, 1995, p. 124 – grifos no original)</p></blockquote>
<blockquote><p>O Plano Diretor pode ser definido como um conjunto de princípios e regras orientadoras da ação dos agentes que constroem e utilizam o espaço urbano. (BRASIL, 2002, p. 40).</p></blockquote>
<p>Pessoalmente, me agrada mais esta última definição, introduzida após a aprovação do Estatuto da Cidade e obedecendo aos seus princípios. Segundo a definição adotada, o plano diretor deve ser um instrumento que orienta <strong>todas</strong> as ações concretas de intervenção sobre o território, independentemente do fato dessas ações serem levadas a cabo pelos indivíduos, pelas empresas, pelo setor público ou por qualquer outro tipo de agente.</p>
<p>Portanto,</p>
<blockquote><p><strong>Plano diretor é um documento que sintetiza e torna explícitos os objetivos consensuados para o Município e estabelece princípios, diretrizes e normas a serem utilizadas como base para que as decisões dos atores envolvidos no processo de desenvolvimento urbano convirjam, tanto quanto possível, na direção desses objetivos.</strong> (SABOYA, 2007, p. 39)</p></blockquote>
<p>Dizer que o plano é um documento significa que ele deve ser explicitado, ou seja, não pode ficar implícito. Ele precisa ser formalizado e, no caso do Brasil, essa formalização inclui a aprovação de uma lei do plano diretor na Câmara.</p>
<p>Em segundo lugar, o plano deve explicitar os objetivos para o desenvolvimento urbano do Município. Quando se deseja planejar algo, um elemento fundamental é poder responder à pergunta: “O que eu quero?” ou: “O que nós queremos?”. Esses objetivos não são “dados”, ou seja, não estão definidos a priori. Eles precisam ser discutidos democraticamente e consensuados de alguma maneira. A diversidade das cidades faz com que seja normal a existência de objetivos conflitantes e, por isso, discutir sobre os objetivos pode ajudar a encontrar soluções que contemplem mais de um ponto de vista.</p>
<p align="center"><img loading="lazy" decoding="async" style="border-right: 0px; border-top: 0px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" src="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/Oqueplanodiretor_D018/planejamento_grafico.png" border="0" alt="planejamento_grafico" width="500" height="329" /><br />
<span style="font-size: small;"><em>Para poder planejar é preciso saber onde se quer ir. O plano diretor deverá definir o caminho a ser seguido.</em></span></p>
<p>Através do estabelecimento de princípios, diretrizes e normas, o plano deve fornecer orientações para as ações que, de alguma maneira, influenciam no desenvolvimento urbano. Essas ações podem ser desde a abertura de uma nova avenida, até a construção de uma nova residência, ou a implantação de uma estação de tratamento de esgoto, ou a reurbanização de uma favela. Essas ações, no seu conjunto, definem o desenvolvimento da cidade, portanto é necessário que elas sejam orientadas segundo uma estratégia mais ampla, para que todas possam trabalhar (na medida do possível) em conjunto na direção dos objetivos consensuados.</p>
<p>O zoneamento é um instrumento importante nesse sentido, já que impões limites às iniciativas privadas ou individuais, mas não deve ser o único. É importante também que estratégias de atuação sejam definidas para as ações do Poder Público, já que essas ações são fundamentais para qualquer cidade. A escolha do local de abertura de uma via, por exemplo, pode modificar toda a acessibilidade de uma área e, por consequência, seu valor imobiliário.</p>
<p>Outros exemplos de diretrizes podem ser vistos no artigo <a href="http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp374.asp" target="_blank">Planos diretores como instrumento de orientação das ações de desenvolvimento urbano</a>. O importante é que o plano defina o caminho, que seja capaz de direcionar as iniciativas isoladas para que, no conjunto, o todo seja maior que a soma das partes.</p>
<h3>Referências bibliográficas</h3>
<p>ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. <strong>NB 1350 </strong>&#8211; Normas para elaboração de plano diretor. Rio de Janeiro, 1991.</p>
<p>BRASIL. <strong>Estatuto da Cidade: guia para implementação pelos municípios e cidadãos</strong>. 2 ed. Brasília: Câmara dos Deputados, Coordenação de Publicações, 2002.</p>
<p>SABOYA, Renato. <strong>Concepção de um sistema de suporte à elaboração de planos diretores participativos</strong>. 2007. Tese de Doutorado apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Engenharia Civil &#8211; Universidade Federal de Santa Catarina.</p>
<p>SILVA, José Afonso. <strong>Direito urbanístico brasileiro</strong>. São Paulo: Malheiros, 1995.</p>
<p>VILLAÇA, Flávio. Dilemas do Plano Diretor. In: CEPAM. <strong>O município no século XXI: cenários e perspectivas</strong>. São Paulo: Fundação Prefeito Faria Lima &#8211; Cepam, 1999. p. 237 &#8211; 247.</p>The post <a href="https://urbanidades.arq.br/2008/06/13/o-que-e-plano-diretor/">O que é plano diretor?</a> first appeared on <a href="https://urbanidades.arq.br">Urbanidades</a>.]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Planejamento Estrat&#233;gico de Cidades &#8211; parte 3</title>
		<link>https://urbanidades.arq.br/2008/06/12/planejamento-estratgico-de-cidades-parte-3/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Renato Saboya]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Jun 2008 19:37:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[participação popular]]></category>
		<category><![CDATA[planejamento estratégico]]></category>
		<category><![CDATA[teoria do planejamento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este post é a terceira parte da série sobre planejamento estratégico de cidades: Planejamento Estratégico de Cidades &#8211; parte 1 Planejamento Estratégico de Cidades &#8211; parte 2 Reconhecer a importância<a href="https://urbanidades.arq.br/2008/06/12/planejamento-estratgico-de-cidades-parte-3/" class="more-link"><span class="readmore">Leia mais...<span class="screen-reader-text">Planejamento Estrat&#233;gico de Cidades &#8211; parte 3</span></span></a></p>
The post <a href="https://urbanidades.arq.br/2008/06/12/planejamento-estratgico-de-cidades-parte-3/">Planejamento Estratégico de Cidades – parte 3</a> first appeared on <a href="https://urbanidades.arq.br">Urbanidades</a>.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Este post é a terceira parte da série sobre planejamento estratégico de cidades:</p>
<ul>
<li><a title="Planejamento Estratégico" href="http://urbanidades.arq.br/2008/05/planejamento-estrategico-de-cidades-parte-1/" target="_blank">Planejamento Estratégico de Cidades &#8211; parte 1</a></li>
<li><a title="Planejamento Estratégico" href="http://urbanidades.arq.br/2008/06/planejamento-estrategico-de-cidades-parte-2/" target="_blank">Planejamento Estratégico de Cidades &#8211; parte 2</a></li>
</ul>
<p>Reconhecer a importância dos elementos do planejamento estratégico pode ajudar os planejadores a fazerem planos melhores. Tentarei provar este argumento a seguir.<span id="more-114"></span></p>
<h3>Orientação para ação e resultados</h3>
<p>A orientação para a ação e para os resultados, característica do Planejamento Estratégico, pode ser absorvida pelos planos diretores para amenizar seu caráter excessivamente normativo. Isso implicaria em diminuir a importância do “que” deve ser obtido para enfocar o “como” (KAUFMAN; JACOBS, 1987, p. 31), indicando caminhos concretos para que os objetivos sejam alcançados. Nesse sentido dois aspectos devem ser destacados.</p>
<p>Em primeiro lugar, ganha-se controle sobre o processo de desenvolvimento urbano, uma vez que a evolução desejada pode ser controlada através de metas estipuladas e de horizontes de tempo, ou prazos, para que elas sejam alcançadas. Isso incorpora a noção de que o desenvolvimento é “dependente do caminho” (<em>path-dependent</em>, em inglês), ou seja, que não é suficiente estipular um estado futuro desejado e esperar que as condições do sistema urbano cheguem até ele, dentro de um horizonte de tempo indefinido, como faz o zoneamento. Ao contrário, é necessário monitorar o caminho seguido, porque as decisões tomadas a cada instante são influenciadas por aquelas que foram tomadas anteriormente.</p>
<p>O segundo aspecto a ser destacado é que, com esse foco no “como” atingir os objetivos, abre-se a possibilidade de uma relação mais integrada entre planejamento e gestão. Com isso, a generalidade excessiva das diretrizes e objetivos dos planos diretores apontada por Villaça (1999) deve ser combatida, a fim de que estes forneçam subsídios para a orientação das ações de gestão.</p>
<p>Isso vai na mesma direção do “plano de ações” proposto por Maricato (2001), que deve, entre outras coisas:</p>
<ul>
<li>Superar o “descasamento” entre a lei e a gestão, prevendo a esfera operacional;</li>
<li>Sugerir a orientação dos investimentos públicos, tirando essa decisão das mãos dos interesses privados;</li>
<li>Propor um novo padrão de fiscalização, que seja aplicada a toda a cidade de forma não discriminatória e honesta.</li>
</ul>
<h3>Participação dos atores envolvidos no processo</h3>
<p>O Planejamento Estratégico defende a necessidade da participação de todos os atores envolvidos no processo, reconhecendo que o enfoque tecnocrático é inapto para alcançar o envolvimento da população, condição essencial para o sucesso do plano.</p>
<blockquote><p>Ao introduzir a duração e os atores como dimensões fundamentais do urbanismo, a planificação estratégica enriquece portanto incontestavelmente a visão do problema e vai no sentido de um maior realismo. (LACAZE, 1993, p. 48).</p></blockquote>
<p>Entretanto, como foi discutido, a prática tem demonstrado que os atores que efetivamente têm participado das reuniões de planejamento estratégico são aqueles ligados ao desenvolvimento econômico e aos interesses privados de maneira geral. Para que a participação tenha legitimidade, entretanto, é imprescindível que o maior número possível de grupos sociais estejam envolvidos, e tenham direito à livre expressão de seus pontos de vista.</p>
<h3>Retomada do projeto</h3>
<p>Atualmente existe uma tendência de retomada da importância dos projetos em planejamento urbano (FORSYTH, 2002), ainda que em muitos casos eles sejam utilizados para criar meros cenários com a intenção de agradar aos olhos e esconder as mazelas da cidade.</p>
<p>Entretanto, isso não significa que os projetos urbanos não possam atuar como catalisadores das mudanças previstas pelo plano. Para isso, basta que eles estejam sintonizados com as diretrizes previstas por ele, ou, ao menos, com os princípios estabelecidos. Por isso, eles podem representar um elemento fundamental nessa nova integração que se pretende entre planejamento e gestão.</p>
<p>Além disso, com a valorização crescente dos espaços públicos, os projetos urbanos tendem a ganhar maior destaque. Não apenas as obras de infra-estrutura devem ser realizadas, mas também obras que ajudem a recompor tecidos urbanos fragmentados, que recomponham espaços tradicionais de trocas sociais, que criem identidade para a cidade ou para partes dela, e que – por que não? – tornem a cidade mais bela.</p>
<h3>Análise externa</h3>
<p>O Planejamento Estratégico incorpora a noção de cidade como parte de um contexto mais amplo, seja ele regional, estadual, nacional ou até mesmo mundial. Com isso, elimina a tendência de se analisar a cidade como um organismo estanque, fechado em si mesmo.</p>
<p>Entretanto, o aspecto mais interessante da análise externa é a possibilidade de expandir esse conceito para abarcar todas as variáveis que estão fora do controle do planejador, e não apenas a noção de região geográfica fora do limite territorial do município.</p>
<p>Dentro do conceito de planejamento <em>strictu sensu</em>, adotado neste trabalho, são muitas as variáveis que estão fora do controle do planejador, tais como os aspectos tributários e demais formas de incentivos às atividades econômicas, e a alocação de recursos para as áreas de educação, saúde, etc. A consciência desse fato acaba com a visão deturpada de que o planejador é onipotente, e que todas as suas decisões e recomendações serão seguidas sem questionamentos.</p>
<p>Por outro lado, isso não quer dizer que não há nada a ser feito com relação a esses aspectos que não estão diretamente sob o controle do planejador. Ao contrário, essa consciência introduz a possibilidade do planejador se preparar para um cenário de incertezas, ao invés de apenas ficar parado e esperar que tudo dê certo.</p>
<p>Um bom exemplo é o processo de aprovação do plano na Câmara. Dependendo de como ela acontecer, pode pôr por terra todo o trabalho realizado para confeccionar o plano, inclusive desvirtuando a legitimidade da participação popular. Apesar de seu uma váriável interna ao Município, ela é externa em relação aos limites de poder do planejador. Ao encarar esse fato, o planejador pode se preparar, por exemplo, divulgando o plano para as comunidades e aconselhando que essas compareçam às audiências públicas, ou mesmo agendando sessões de esclarecimentos aos vereadores sobre pontos que porventura tenham ficado obscuros.</p>
<h3>Ênfase nos pontos críticos</h3>
<p>O Planejamento Estratégico concentra a atuação sobre os chamados fatores-chave, em contraposição à abordagem abrangente, que realiza grandes diagnósticos e pretende atuar sobre todos os aspectos relevantes dos sistemas urbanos. Essa atitude tem se mostrado incapaz, num país caracterizado pela escassez de recursos como o Brasil, de ser eficaz no combate aos problemas urbanos.</p>
<p>A tendência que se verifica atualmente é a de se ater àqueles aspectos considerados mais importantes, e concentrar os esforços para resolvê-los.</p>
<blockquote><p>As novas práticas substituem o Plano que prioriza tudo – ou seja, não prioriza nada – pela idéia do Plano como um processo político, por meio do qual o poder público canaliza seus esforços, capacidade técnica e potencialidades locais em torno de alguns objetivos prioritários. (BRASIL, 2002, p. 40).</p></blockquote>
<p>Essas prioridades devem ser definidas caso a caso e, principalmente, com ampla participação da população.</p>
<h3>Referências bibliográficas</h3>
<p class="MsoNormal">BRASIL. <strong>Estatuto da Cidade: guia para implementação pelos municípios e cidadãos</strong>. Brasília: Câmara dos Deputados, Coordenação de Publicações, 2002.</p>
<p class="MsoNormal"><span lang="EN-US">FORSYTH, Ann. Trajectories of planning theory: the 2001 ACSP anniversary round table. </span><strong>Planning Theory</strong>, v. 1, n. 3, p. 203 &#8211; 208, 2002.</p>
<p class="MsoNormal">KAUFMAN, Jerome; JACOBS, Harvey. <span lang="EN-US">A public planning perspective on strategic planning<em>. </em><strong>Journal of the American Planning Association</strong>, n. 53, p. 23 – 33, 1987.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span lang="EN-US">LACAZE, Jean-Paul. </span><strong>Os métodos do urbanismo</strong>. Campinas: Papirus, 1993.</p>
<p class="MsoNormal">MARICATO, Ermínia. <strong>Brasil, cidades: alternativas para a crise urbana</strong>. Petrópolis: Vozes, 2001.</p>
<p class="MsoNormal">VILLAÇA, Flávio. Dilemas do Plano Diretor. In: CEPAM. <strong>O município no século XXI: cenários e perspectivas</strong>. São Paulo: Fundação Prefeito Faria Lima – Cepam, 1999. p. 237 &#8211; 247.</p>The post <a href="https://urbanidades.arq.br/2008/06/12/planejamento-estratgico-de-cidades-parte-3/">Planejamento Estratégico de Cidades – parte 3</a> first appeared on <a href="https://urbanidades.arq.br">Urbanidades</a>.]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Planejamento Estrat&#233;gico de Cidades &#8211; parte 2</title>
		<link>https://urbanidades.arq.br/2008/06/05/planejamento-estrategico-de-cidades-parte-2/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Renato Saboya]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Jun 2008 19:09:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[bê-á-bá]]></category>
		<category><![CDATA[planejamento estratégico]]></category>
		<category><![CDATA[planejamento urbano]]></category>
		<category><![CDATA[teoria do planejamento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este post é uma continuação de “Planejamento estratégico de cidades – parte 1”, onde vimos uma definição do planejamento estratégico aplicado aos sistemas urbanos, suas etapas e algumas críticas que<a href="https://urbanidades.arq.br/2008/06/05/planejamento-estrategico-de-cidades-parte-2/" class="more-link"><span class="readmore">Leia mais...<span class="screen-reader-text">Planejamento Estrat&#233;gico de Cidades &#8211; parte 2</span></span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Este post é uma continuação de “<a title="Planejamento estratégico de cidades – parte 1" href="http://urbanidades.arq.br/2008/05/planejamento-estrategico-de-cidades-parte-1/" target="_blank">Planejamento estratégico de cidades – parte 1</a>”, onde vimos uma definição do planejamento estratégico aplicado aos sistemas urbanos, suas etapas e algumas críticas que têm sido feitas sobre a forma como ele tem sido aplicado em algumas cidades. Apesar de essas críticas serem pertinentes e importantíssimas para uma avaliação crítica do planejamento estratégico, uma observação cuidadosa vai demonstrar que elas se referem não ao processo em si, com ele é defendido pelos seus autores, mas à maneira como ele tem sido levado a cabo e efetivado na prática.<span id="more-113"></span></p>
<p>É possível separar as críticas em duas categorias distintas. A primeira delas refere-se ao conteúdo dos planos estratégicos e, por conseqüência, aos valores e princípios que nortearam a sua concepção. Referem-se portanto ao aspecto “substantivo” do planejamento estratégico, e não ao aspecto “processual” (CAMPBELL, 2003). Quando Vainer critica a “venda” da cidade aos empresários, mais do que criticando a venda em si, ele está questionando a quem a cidade está sendo vendida. Como ele mesmo ressalta, a cidade pode ser vendida aos idosos, que procurariam lugares calmos, ou aos jovens, que dariam preferência àqueles lugares que oferecessem entretenimento. Entretanto, na prática isso não tem acontecido e, como aponta Vainer, os atributos valorizados para facilitar a venda têm sido, invariavelmente, aqueles mais interessantes ao capital transnacional.</p>
<p align="center"><a href="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/2a0b29780320_DFB8/114428100141.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" style="border-right: 0px; border-top: 0px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" src="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/2a0b29780320_DFB8/114428100141_thumb.jpg" border="0" alt="114428100141" width="500" height="333" /></a></p>
<p>O mesmo acontece com relação à adoção, como princípios fundamentais, da “produtividade, competitividade e a subordinação dos fins à lógica do mercado” (VAINER, 1999, p. 8). Mais uma vez a crítica refere-se aos valores utilizados e às alternativas adotadas em casos específicos, e não a um defeito do planejamento estratégico enquanto conceito nem enquanto processo.</p>
<p>O segundo grupo de críticas refere-se a aspectos processuais mas, mais uma vez, limitam-se ao modo como o processo foi (ou tem sido) conduzido em casos concretos, específicos. Com relação à participação dos atores, por exemplo, o Planejamento Estratégico defende explicitamente (ao menos na teoria, é claro) que todos os atores que de alguma maneira sejam afetados pelos resultados do plano participem da sua elaboração. Entretanto, na prática, não é isso que tem acontecido, pois a preferência é dada àqueles atores mais importantes do ponto de vista do desenvolvimento econômico, o que inevitavelmente acabará introduzindo distorções nos valores adotados.</p>
<p>Souza (2003, p. 137) chega à mesma conclusão quando faz uma análise do que ele chama de “perspectivas mercadófilas”:</p>
<blockquote><p><img loading="lazy" decoding="async" style="border-right: 0px; border-top: 0px; margin: 0px 0px 0px 15px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" src="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/2a0b29780320_DFB8/Ipad.jpg" border="0" alt="Ipad" width="240" height="150" align="right" /> O enfoque chamado de estratégico tem, muitas vezes, andado associado à perspectiva “mercadófila” neoconservadora, mas seria incorreto, por diversas razões, tomar o primeiro como sendo idêntico ao segundo.</p></blockquote>
<p>Segundo ele, a expressão planejamento estratégico tem abarcado coisas distintas. Se, por um lado, ele tem sido caracterizado pelo conservadorismo empresarialista, por outro lado existem exemplos de aplicações progressistas do planejamento estratégico, como o desenvolvido por Carlos Matus no Chile, que teve nítida influência na administração petista em Porto Alegre a partir de 1989. Isso provaria que, em ambientes críticos, o conceito de planejamento estratégico pode florescer com nuances mais inclusivas e afastadas dos valores neoliberais.</p>
<p>Em qualquer abordagem de planejamento que se adote sempre existirá o planejamento “bem feito” e o planejamento “mal feito”. O fato de os conceitos do planejamento estratégico terem sido utilizados, num grande numero de situações, para expressar valores no mínimo contestáveis não significa que a abordagem, enquanto conceito, não possua virtudes que possam ser apropriadas e ajustadas para tornar o planejamento mais eficiente e mais eficaz. Demonstrar esse ponto de vista é o objetivo do terceiro e último post, em breve.</p>
<h3>Referências bibliográficas:</h3>
<p>CAMPBELL, Scott. Green cities, growing cities, just cities? Urban planning and the contradictions of sustainable development. In: CAMPBELL, Scott; FAINSTEIN, Susan. <strong>Readings in planning theory</strong>. Malden: Blackwell Publishing, 2003. p. 435 &#8211; 458.</p>
<p>SOUZA, Marcelo Lopes. <strong>Mudar a cidade: uma introdução crítica ao planejamento e à gestão urbanos</strong>. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.</p>
<p>VAINER, Carlos. Pátria, Empresa e Mercadoria. Notas sobre a estratégia discursiva do planejamento estratégico urbano. In: ENCONTRO NACIONAL DA ANPUR, 1999, Porto Alegre. <strong>Anais eletrônicos</strong>&#8230; Porto Alegre: UFRGS, 1999.</p>
<p><strong>Veja também:</strong></p>
<ul>
<li><strong><a href="http://urbanidades.arq.br/2008/03/o-surgimento-do-planejamento-urbano/">O surgimento do planejamento urbano</a></strong></li>
<li><strong><a href="http://urbanidades.arq.br/2007/11/progresso-traz-insegurana-e-outras-falcias/">&#8220;Progresso traz insegurança&#8221; e outras falácias</a></strong></li>
<li><strong><a href="http://urbanidades.arq.br/2007/09/objetivos-genericos/">O perigo dos objetivos genéricos</a></strong></li>
</ul>The post <a href="https://urbanidades.arq.br/2008/06/05/planejamento-estrategico-de-cidades-parte-2/">Planejamento Estratégico de Cidades – parte 2</a> first appeared on <a href="https://urbanidades.arq.br">Urbanidades</a>.]]></content:encoded>
					
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		<title>Planejamento estratégico de cidades &#8211; parte 1</title>
		<link>https://urbanidades.arq.br/2008/05/29/planejamento-estrategico-de-cidades-parte-1/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Renato Saboya]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 May 2008 20:43:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[bê-á-bá]]></category>
		<category><![CDATA[planejamento estratégico]]></category>
		<category><![CDATA[planos diretores]]></category>
		<category><![CDATA[teoria do planejamento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No final da década de 80 e início da década de 90 surgiu um enfoque que, até hoje, vem exercendo grande influência na forma como o planejamento urbano é feito<a href="https://urbanidades.arq.br/2008/05/29/planejamento-estrategico-de-cidades-parte-1/" class="more-link"><span class="readmore">Leia mais...<span class="screen-reader-text">Planejamento estratégico de cidades &#8211; parte 1</span></span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>No final da década de 80 e início da década de 90 surgiu um enfoque que, até hoje, vem exercendo grande influência na forma como o planejamento urbano é feito ou, ao menos, recomendado: o <strong>planejamento estratégico</strong>.</p>
<p>Prova disso é a própria resolução 34 do Conselho das Cidades,  que diz no seu art. 1:</p>
<blockquote class="citacoes"><p>Art. 1º O Plano Diretor deve prever, no mínimo:</p>
<p>&#8230;</p>
<p>III-  os objetivos, <strong>temas prioritários e estratégias</strong> para o desenvolvimento da cidade e para a reorganização territorial do município, considerando sua adequação aos espaços territoriais adjacentes; (grifo nosso)<span id="more-111"></span></p></blockquote>
<p>O planejamento estratégico representou uma transposição dos conceitos do planejamento de empresas para o planejamento urbano (KAUFMAN; JACOBS, 1987), e vem sendo utilizado em várias cidades ao redor do mundo e inclusive no Brasil (ver, por exemplo, VAINER, 2000). Um caso significativo é o de Barcelona, por ocasião das Olimpíadas em 1992, conduzido e liderado por Jordi Borja.</p>
<p align="center"><a href="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/Planejamentoestratgicodecidades_EA31/BarcelonaPortOlimpic01.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" style="border-right: 0px; border-top: 0px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" src="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/Planejamentoestratgicodecidades_EA31/BarcelonaPortOlimpic01_thumb.jpg" border="0" alt="Barcelona - Port Olimpic - 01" width="500" height="333" /></a><br />
<span style="font-size: x-small;"><em>Foto: </em></span><a href="http://www.flickr.com/photos/ilesh/427168477/" target="_blank"><span style="font-size: x-small;"><em>ILESH</em></span></a></p>
<p>Grande parte da sua justificativa teórica baseia-se na crítica às limitações do planejamento racional / abrangente, e no reconhecimento de que as mudanças por que passam as cidades estão cada vez mais aceleradas. O planejamento estratégico se diferencia do planejamento racional-abrangente por uma ênfase maior em:</p>
<p><!--more--></p>
<p>a) ações; b) consideração dos “<em>stakeholders</em>”, entendidos como todos aqueles indivíduos, grupos ou organizações que têm algum interesse e/ou que podem de alguma maneira influenciar no processo de planejamento; c) atenção às ameaças e oportunidades externas, bem como aos pontos fortes e fracos internos; e d) atenção aos competidores existentes ou potenciais (BRYSON; ROERING, 2004).</p>
<p>Com efeito, é no planejamento estratégico que se incorpora explicitamente a noção de que é necessário envolver todos os atores mais importantes para a implementação posterior das estratégias. Até então, as teorias sobre o planejamento urbano tratavam os decisores de forma implícita, como se o próprio planejador tivesse a prerrogativa sobre a decisão final. Além disso, o planejamento estratégico dá atenção também à análise das forças e tendências que estão fora do domínio do município, como é o caso das condicionantes macroeconômicas, por exemplo.</p>
<p>Algumas das principais características do planejamento estratégico podem ser sintetizadas da seguinte maneira:</p>
<ul>
<li><strong>Ênfase na competitividade entre cidades</strong> – estas não são vistas como isoladas de um contexto mais amplo, e sim como pólos de prestação de serviços e de geração de renda que competem entre si para atrair investimentos, empregos, etc. Nesse ponto entra também o marketing das cidades.</li>
<li><strong>Incorporação da análise do contexto externo </strong>– como será explicado mais adiante.</li>
<li><strong>Foco nos pontos fortes e nos pontos fracos</strong> – Não apenas os problemas (pontos fracos) devem ser detectados, mas também os pontos fortes da cidade, aqueles nos quais ela se sobressai em relação às suas “concorrentes”.</li>
<li><strong>Orientação à ação e aos resultados</strong> – ao contrário do planejamento normativo tradicional, que estabelece regulamentos e índices e espera que a cidade se desenvolva respeitando-os até alcançar um estado futuro desejado (caráter normativo), o planejamento estratégico se concentra em ações a serem adotadas e nos resultados concretos alcançados a curto, médio e longo prazos. Por isso, há uma revalorização dos projetos urbanos, a exemplo de Barcelona.</li>
<li><strong>Participação dos atores envolvidos nos processos urbanos</strong> – todas aquelas pessoas que serão diretamente atingidas pelos resultados do processo de planejamento urbano devem participar ativamente da confecção do plano estratégico.</li>
<li><strong>Relação com o planejamento sistêmico</strong> – Lacaze (1993) argumenta que o planejamento estratégico representa a transposição da noção de sistemas para o planejamento urbano. Isso significa que todos os aspectos da cidade estão relacionados entre si e que, portanto, a atuação sobre qualquer um deles acaba afetando os demais. Isso, por sua vez, contribui para justificar o ponto seguinte.</li>
<li><strong>Ênfase na atuação sobre pontos-chave</strong> – a ênfase das intervenções é dada àqueles aspectos considerados estruturais, ou seja, capazes de influenciar o sistema como um todo de maneira mais contundente. Portanto, a atuação do planejamento estratégico não se dá sobre todos os pontos importantes, mas apenas sobre aqueles que têm a capacidade de atuar como catalisadores de mudanças importantes, chamados também de fatores críticos (KAUFMAN; JACOBS, 1987; LACAZE, 1993; GÜELL, 1997).</li>
</ul>
<h3>Processo e etapas</h3>
<p>Bryson (2004) sugere as seguintes etapas (ou, segundo o próprio autor, “ocasiões para o diálogo e decisão”) para o planejamento estratégico:</p>
<ol>
<li>Iniciar e pactuar um processo de planejamento estratégico</li>
<li>Identificar os requisitos legais</li>
<li>Esclarecer a missão e os valores</li>
<li>Avaliar os ambientes interno e externo</li>
<li>Identificar as questões estratégicas</li>
<li>Formular as estratégias para responder às questões</li>
<li>Revisar e adotar as estratégias ou o plano estratégico</li>
<li>Definir a visão de futuro</li>
<li>Desenvolver um processo de implementação do plano estratégico</li>
<li>Reavaliar as estratégias e o processo de planejamento estratégico</li>
</ol>
<p><strong>1. Iniciar e pactuar um processo de planejamento estratégico:</strong> nesta etapa deve-se buscar a negociação de um acordo entre os principais decisores sobre a necessidade de um plano estratégico e sobre as etapas gerais a serem cumpridas, como forma de obter comprometimento com o processo. É nessa etapa também que deve ser feita uma análise dos <em>stakeholders</em>, entendidos como “uma pessoa, grupo ou organização que possa demandar atenção, recursos ou resultados de uma organização (ou outra entidade), ou que é de alguma maneira afetada por suas ações.” (BRYSON, 2004, p. 35).</p>
<p><strong>2. Identificar os requisitos legais:</strong> aqui devem ser listados e analisados todos os requisitos aos quais o Município deve obedecer, tais como condicionantes, restrições, expectativas, objetivos, etc.</p>
<p><strong>3. Esclarecer a missão e os valores: </strong>a missão é o objetivo máximo de uma organização, entendido, entretanto, como um meio para se alcançar um valor maior. Os valores são aquelas características ou princípios considerados essenciais para que a organização cumpra sua missão.</p>
<p><strong>4. Avaliar os ambientes interno e externo: </strong>a análise externa busca avaliar as ameaças e oportunidades que se apresentam para a cidade, dentre as variáveis que estão fora do domínio do planejador. Nesse sentido, ameaças podem ser entendidas como uma condicionante desfavorável imposta por um acontecimento do entorno, enquanto que oportunidade pode ser definida como o inverso, ou seja, como uma ocasião para se alcançar uma vantagem competitiva (uma possibilidade de conseguir recursos financeiros através de um edital, por exemplo).</p>
<p>A análise interna envolve a avaliação dos pontos fortes e fracos do Município ou da organização. Essa avaliação, entretanto, para ter sentido, precisa estar integrada à análise externa, visto que os pontos fortes e fracos de uma cidade adquirem real significado quando comparados aos das suas competidoras. Assim, por exemplo, um ponto forte pode ser neutralizado pela existência do mesmo ponto forte em outra cidade ou, por outro lado, pode acontecer o inverso: a importância de um ponto fraco pode ser amenizada pela existência do mesmo ponto fraco nas suas concorrentes (GÜELL, 1997).</p>
<p><strong>5 . Identificar as questões estratégicas:</strong> este pode ser considerado como o ponto crítico do processo, uma vez que as 4 primeiras etapas têm como função preparar os decisores para esta etapa, que envolve a identificação das questões ou desafios fundamentais a serem enfrentados para que a organização possa cumprir sua missão. Segundo Bryson (2004), isso só é possível com um conhecimento profundo sobre o objeto do planejamento, e esse conhecimento é construído durante as 4 etapas iniciais.</p>
<p>A principal função desta etapa é concentrar a atenção, e conseqüentemente os esforços, naqueles itens realmente importantes para o Município ou para a organização. Dessa forma, evita-se o desperdício de recursos (humanos, financeiros, etc.) em ações que tendem a não apresentar os melhores resultados.</p>
<p><strong>6. Formular as estratégias para responder às questões:</strong> esta etapa trata de desenvolver as estratégias consideradas capazes de responder às questões estratégicas identificadas na etapa anterior. Bryson (2004, p. 46) adota uma definição bastante ampla de estratégia: “Uma estratégia pode ser definida como um padrão de objetivos, políticas, programas, ações, decisões ou alocação de recursos que definem o que uma organização é, o que ela faz, e porque ela o faz”.</p>
<p>Güell (1997), por sua vez, define estratégia como cursos de ação cujos objetivos são incentivar os pontos fortes, superar os pontos fracos, explorar oportunidades e neutralizar as ameaças, sendo compostas por:</p>
<ol>
<li>objetivos estratégicos – declarações conceituais e genéricas sobre as condições desejadas;</li>
<li>metas estratégicas – declarações que definem e quantificam os objetivos a serem alcançados;</li>
<li>projetos estratégicos – ações necessárias para dar resposta adequada às metas estratégicas.</li>
</ol>
<p><strong>7. Revisar e adotar as estratégias ou o plano estratégico: </strong>nesta etapa o plano estratégico deve ser aprovado oficialmente pelas instâncias competentes antes de poder ser implementado. No caso dos municípios brasileiros, essa aprovação oficial é feita pela Câmara de Vereadores, que também tem o poder de propor alterações e ajustes ao projeto de lei do plano diretor.</p>
<p><strong>8. Definir a visão de futuro: </strong>corresponde à construção de uma descrição de como o Município deverá ser depois que tiver implementado as estratégias com sucesso. Sua principal função é comunicar o que se espera dos atores e motivá-los através de uma visão inspiradora e clara sobre o futuro desejado. Bryson (2004) nota que no planejamento estratégico de comunidades a tendência é que esta etapa aconteça no início do processo.</p>
<p><strong>9. Desenvolver um processo de implementação do plano estratégico:</strong> aqui devem ser desenvolvidos plano detalhados de ação que possibilitem a implementação das estratégias definidas anteriormente. Esses planos devem especificar as pessoas ou atores responsáveis por cada ação, os objetivos específicos e as metas que demonstrem se estes estão sendo alcançados, o cronograma de ações, os recursos destinados, etc.</p>
<p><strong>10. Reavaliar as estratégias e o processo de planejamento estratégico:</strong> depois de algum tempo de implementação das estratégias, deve ser feita uma avaliação dos resultados alcançados com vistas a subsidiar ajustes ou mesmo outros processos de planejamento estratégico. Güell (1997) acrescenta que é importante que as estratégias adotadas sejam divulgadas para toda a população, de forma a envolver a população na sua implementação e no monitoramento dos resultados obtidos.</p>
<h3>Críticas ao planejamento estratégico</h3>
<p>Diversas críticas têm sido feitas ao planejamento estratégico, principalmente com relação a algumas premissas sobre o conteúdo das estratégias e à visão de cidade como um “produto” a ser vendido. Além disso, fortes críticas têm sido feitas com relação à “participação” dos atores, que muitas vezes tem ficado restrita àqueles setores mais ligados ao capital econômico (VAINER, 1999). Essas observações são importantes na medida em que alguns dos princípios do planejamento estratégico influenciam a forma como os planos diretores são elaborados atualmente no Brasil, exigindo, portanto, uma atitude crítica frente aos seus postulados e à forma de exercê-los na prática do planejamento.</p>
<p>Carlos Vainer (1999) destaca três aspectos condenáveis do planejamento estratégico.</p>
<p>O primeiro deles diz respeito ao <strong>marketing de cidades</strong>. Se a intenção é vender, surge a questão: vender para quem? A prática mostra que normalmente a cidade é “vendida” para os grandes investidores do capital estrangeiro. Isso quer dizer que os aspectos a serem valorizados na cidade não são aqueles importantes para a população em geral, mas sim aqueles que agradam e esse grupo específico.</p>
<p>Por isso, aspectos como infra-estrutura tecnológica e de comunicações, hotéis de luxo, mão-de-obra qualificada e aeroportos internacionais passam a liderar a lista de prioridades dos planos estratégicos.</p>
<p>Com relação à ambiência urbana, por outro lado, o marketing acabou gerando uma banalização dos projetos urbanos, vistos como instrumentos para embelezar a cidade e atrair o investidor interessado em uma cidade agradável para morar. Com isso, abre-se mão de uma visão integrada dos problemas urbanos, gerando um conjunto de intervenções fragmentadas que desperdiçam seu potencial de estruturar o espaço e atuar positivamente na dinâmica do sistema urbano. Essa prática, aliás, vai radicalmente contra a visão sistêmica da cidade defendida pelo próprio planejamento estratégico, conforme vimos acima.</p>
<p>A intenção de “vender” a cidade fica bem clara até mesmo na linguagem utilizada nos ensaios teóricos. Güell (1997, p. 133), por exemplo, diz que depois que um empresário escolhe uma cidade ele pode ou não recomendá-la para outras pessoas, e acrescenta: “por essa razão, o papel do <em>vendedor do lugar</em> não termina com a compra, e sim continua com o que se conhece como período <em>pós-venda</em>” (grifos nossos).</p>
<p>Em segundo lugar, Vainer critica a <strong>analogia entre cidade e empresa</strong> adotada pelo planejamento estratégico. Nessa abordagem os princípios mais importantes são “produtividade, competitividade e a subordinação dos fins à lógica do mercado” (VAINER, 1999, p. 8).</p>
<p>Assim, ver a cidade como empresa significa, essencialmente, concebê-la e instaurá-la como agente econômico que atua no contexto de um mercado e que encontra neste mercado a regra e o modelo do planejamento e execução de suas ações. (VAINER, 1999, p. 8).</p>
<p>Por último, a <strong>necessidade de consenso</strong>. Segundo Vainer, ele reduz os conflitos inerentes à complexidade da vida social urbana a níveis inaceitáveis, em nome de uma unanimidade necessária para se alcançar o desenvolvimento, baseado, como já foi dito, numa política de subserviência aos interesses do capital.</p>
<p>Com isso, o aspecto político do planejamento é negligenciado, visto que os princípios e os interesses estão definidos a priori. A participação dos atores, defendida pelo planejamento estratégico, acaba sendo feita basicamente por aqueles que detêm o poder econômico.</p>
<h3>Conclusões</h3>
<p>Tudo isso significa então que o planejamento estrátégico é uma arma diabólica criada pelo capital e que, portanto, temos que correr dela como o diabo foge da cruz?</p>
<p>Não é tão simples. Do meu ponto de vista, o planejamento estratégico tem muito a contribuir com a nossa prática, desde que feito dentro de certos limites e princípios. Mas isso fica para um próximo post.</p>
<h3>Referências biliográficas</h3>
<p>BRYSON, John. <strong>Strategic planning for public and nonprofit organizations: a guide to strengthening and sustaining organizational achievement</strong>. SanFrancisco: Jossey-Bass, 2004.</p>
<p>BRYSON, John; ROERING, William. Applying private-sector strategic planning in the public sector. In: STEIN, Jay. <strong>Classic readings in urban planning</strong>. Chicago: Planners Press, 2004. p. 202 &#8211; 220. (Artigo publicado originalmente em 1987).</p>
<p>GÜELL, José M. Fernandez. <strong>Planificación estratégica de ciudades</strong>. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 1997.</p>
<p>KAUFMAN, Jerome; JACOBS, Harvey. A public planning perspective on strategic planning. <strong>Journal of the American Planning Association</strong>, v. 53, p. 23 -33, 1987.</p>
<p>LACAZE, Jean-Paul. <strong>Os métodos do urbanismo</strong>. Campinas: Papirus, 1993.</p>
<p>VAINER, Carlos. Os liberais também fazem planejamento urbano? In: ARANTES, Otília; VAINER, Carlos; MARICATO, Ermínia. <strong>A cidade do pensamento único: desmanchando consensos</strong>. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 105 &#8211; 119.</p>
<p>VAINER, Carlos. Pátria, empresa e mercadoria: notas sobre a estratégia discursiva do planejamento estratégico urbano. In: VIII ENCONTRO NACIONAL DA ANPUR, 1999 Porto Alegre. <strong>Anais eletrônicos&#8230;</strong> Porto Alegre: PROPUR &#8211; UFRGS, 1999.</p>The post <a href="https://urbanidades.arq.br/2008/05/29/planejamento-estrategico-de-cidades-parte-1/">Planejamento estratégico de cidades – parte 1</a> first appeared on <a href="https://urbanidades.arq.br">Urbanidades</a>.]]></content:encoded>
					
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		<title>Perguntas simples, respostas nem tanto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Renato Saboya]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 May 2008 12:57:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[ensino]]></category>
		<category><![CDATA[planejamento urbano]]></category>
		<category><![CDATA[teoria do planejamento]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/Perguntassimples_9F0D/dilema_teste.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" style="border-right: 0px; border-top: 0px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" src="http://urbanidades.arq.br/imagens/2008/Perguntassimples_9F0D/dilema_teste_thumb.jpg" border="0" alt="dilema_teste" width="500" height="335" /></a><br />
<em><a title="Dilema" href="http://www.flickr.com/photos/11374424@N03/2407705437/"><span style="font-size: x-small;">Foto: Rustybuckets</span></a></em></p>
<ul>
<li>A que densidade corresponde um determinado Índice de Aproveitamento?</li>
<li>Por falar nisso, qual é a densidade mais adequada a uma área residencial?</li>
<li>A escolha da maioria é necessariamente a melhor escolha?</li>
<li>O plano diretor deve ser apenas físico-territorial ou deve abranger também outros aspectos (políticas de saúde, educação, assistência social, etc.)?</li>
<li>Qual a diferença entre planejamento urbano e urbanismo?</li>
<li>Como melhorar a forma da cidade através do plano diretor?</li>
</ul>The post <a href="https://urbanidades.arq.br/2008/05/20/perguntas-simples-respostas-nem-tanto/">Perguntas simples, respostas nem tanto</a> first appeared on <a href="https://urbanidades.arq.br">Urbanidades</a>.]]></content:encoded>
					
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